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terça-feira, fevereiro 25

Gustave Flaubert, o idiota da família - volume I de J-P Sartre!


Dizia meu avô Ismael, que em toda família nasce um idiota, no meio da prole geral. E dava uns dois ou três exemplos entre os vizinhos na Vila Nova, para provar sua científica observação. Tinha ares de pesquisa estatística e aqueles três exemplos provavam a tese levantada e não se falava mais nisso. Eu mesmo vira alguns idiotas, um ou dois amiguinhos de infância, de quem se dizia que não podiam desenhar o "ó" sentando em uma folha de papel! O problema é que a coisa se virou contra mim, logo aí pelos três ou quatro anos de idade e depois por longo tempo. Eu me movimentava, em muitos aspectos, naquela faixa de crianças bestas, boquiabertas até babar, com qualquer acontecimento mais ou menos trivial. Ia de uma carreira de formigas carregando tiquinhos de folhas em suas tenazes, até nuvens com formatos difusos, que me hipnotizavam longamente, passando por pessoas, animais, estradas, árvores, objetos de uso pessoal e um sem fim de letras, nos poucos livros, jornais e revistas que aportavam naquela casa.
De fato, as letras encabeçavam a longa lista de estupefacientes que me arremessavam no mundo do sonho, do devaneio, do delírio e acho que até da alucinação. Diferente de Flaubert, um idiota mais obtuso e renitente, eu aprendi ler antes dele; aos seis anos meu avô, aquele mesmo que descobria idiotas entre vizinhos, talvez preocupado com minha cretinice, me ensinou a ler a Bíblia. Isso, soube depois, me deu grande desvantagem na escolinha frente a Dona Lourdes; como as aulas do primeiro ano não me interessavam nem um pouco, levei broncas homéricas e castigos por falar demais na classe ou por ser arrebatado por um desenho nas madeiras das paredes - falar atrapalhava os colegas e divagar parecia uma afronta à mestre.
Se fui tão idiota quanto Flaubert não o sei, mas tenho certeza que ele foi um idiota genial e eu apenas um sofrível e normal sonhador com letras andando umas atrás das outras, fazendo frases e frases, numa faina infinita, que me causavam um alheamento bem visível. Ele escreveu Madame Bovary e eu ainda espero cair um raio do céu para me inspirar, tal como aquela graça da qual Agostinho nos fala - cai das colmeias celestes, uma gota qualquer que nos inunda e aí fazemos, finalmente, sentido. 
Minha avó materna, confirmando a lúgubre desconfiança, tinha um nome para mim: Náno! Dizia ela que se tratava de uma palavra em um dialeto qualquer da península itálica, que queria dizer "bobo". Um bobo-alegre na hipótese mais generosa. Uma vez eu ouvira ela exasperada me chamando por Náno, enquanto eu tentava entender porque as joaninhas que eu havia colocado em uma lata de terra, para cavarem e se esconderem, tinham desaparecido. Eu só queria proporcionar para as pequeninas, uma maneira de se defenderem dos perigos da noite. Devia, naquelas alturas, estar babando nos joelhos, pelo empenho da avó para me tirar daquela morbidez dos sentidos.
Doutra feita eu verifiquei linha por linha de uma longa colcha de fios de aranha, que por um mistério qualquer, formara uma joia finíssima incrustada por milhões de gotículas de sereno, sob a luz brilhante do sol da manhã. Era-me impossível não ficar contemplativo, pasmado, frente a estes acontecimentos impossíveis! Gustave Flaubert em uma de suas cartas estudadas por Sartre, disse que lhe restaram traços destes tempos de obtusidade do espírito, que se mantiveram íntegros até o final de sua vida. De minha parte posso garantir que me perguntam até hoje se sou concentrado ou distraído.
Flaubert, mesmo sob o peso da bazófia de parentes e conhecidos, prosseguiu sua escrita, e ainda nem bem tinha terminado sua longa adolescência e já estava sendo processado pelo genial perfil de sua obra de crítica aos costumes da época. Por causa de sua idiotia, pode olhar até perder-se em sua Bovary, criando uma das almas mais complexas da literatura do romance tal como conhecemos hoje e fazer um raio-x de certos costumes da época. O que não agradou certas suscetibilidades.
Já minha idiotia é quase sempre despertada pela natureza; olhar a vida que se manisfesta nas menores fendas do mundo é um gozo flaubertino; como não sei criar almas pelas letras e enquanto não aprendo seus segredos, vou lendo Sartre e sua obra sobre a inocência do menino Gustave, tentando não ser tomado pela estupefação. 

sexta-feira, fevereiro 8

O muro da morte e o nada!


O Muro é uma das muitas formas de Sartre se referir ao impossível de se viver a própria morte. O pano de fundo desta aula de desespero é a história de alguns anarquistas presos e levados para o gélido porão de um hospital, que lhes servirá de cela até seu fuzilamento. Tom, Pablo e Juan parecem funcionar como partes de um mesmo personagem e, talvez, o alter ego do filósofo que escreve contos e romances engajados – tal como defendeu em seu Que é a literatura? Este é o conto que dá nome ao livro juntado a outras quatro histórias curtas, sempre com uma ou outra tinta existencialista. O que lhe valeu críticas por acreditar que a literatura tem responsabilidades para com o mundo; ao contrário, muitos críticos lhe diziam que a literatura não deveria ser engajada. Pelo sim, pelo não, a verdade é que Sartre, como poucos, soube contar uma história e imiscuir no tecido de sua prosa seu pensamento, que passa ao largo, caso não tenhamos uma atenção um tanto quanto prevenida. Isso de jeito nenhum estraga o prazer de ler sua escrita. Até pelo contrário, os desprevenidos, aqueles que não conhecem o filósofo por detrás do contista ou romancista, acabam se surpreendendo com descrições magistrais de personagens que têm uma profundidade inusitada de pessoas comuns.
Faz sentido esse homem qualquer povoar sua obra, pois foi como “um qualquer” que Sartre se quis visto. Esse homem que é “um qualquer”, esse homem cotidiano, sempre a ponto de ser alguém, é que dá o tom em sua prosa. Ao descrever, por exemplo, Henri, pela boca de Lulu, em Intimidade, sabemos que não se ocupa da alma dos personagens, mas de todos seus pequenos gestos, falas e pensamentos confessados em meio a situações que vão se desnudando como uma clareira que nos surpreende pelo seu aparecimento subitâneo. Henri era inflexível como uma estaca quando estava no meio de outras pessoas (admirava os suíços e particularmente os genebrinos, achava-os altivos porque eram impassíveis), mas negligenciava as pequenas coisas; não era muito asseado, por exemplo, não mudava de cueca com frequência. [...] Lulu não se incomodava com a sujeira: dá certo ar de intimidade, cria certos sombreados familiares. [...] Sentia, porém, horror às negligências do marido, porque refletiam um carinho excessivo por si próprio.
Voltemos a Pablo, Tom e Juan. Estão detidos pelas autoridades para investigação, julgamento e punição por suas atividades políticas anarquistas na Espanha. Sabem que morrerão em poucas horas; ao amanhecer ficarão em frente de um pelotão de cinco a oito soldados e serão trespassados por projéteis que lhes atingirão o rosto para que morram desfigurados – talvez uma técnica de intimidação. Estão gelados pelo frio, embora suem de empapar as camisas...  Tom conversa muito, Pablo em silêncio... O assunto, claro, é a morte. Mais exatamente a morte que é nossa, mas que não poderemos experimentar, uma vez que a experiência implica alguém que a ultrapasse, que esteja lá depois do acontecimento. A morte é impensável porque dela não resta alguém que possa olhá-la retrospectivamente. Sempre a colocamos num futuro no qual estaremos no modo de não-presença. Talvez Sartre tenha em mente Heidegger, que disse que somos seres para a morte (Ser e Tempo), mas para implicar com ele; somos seres para a vida e a morte não nos pertence, nem no modo de experiência, nem no modo de vida. A morte é o fim da vida, pura e simplesmente. Isso não quer dizer que a morte não nos interesse; fazemos dela o tema das religiões, da poesia, da psicanálise – ela é cotidiana e inevitável, o que não a coloca entre as coisas com as quais podemos dialogar. A morte é o cerrar dos sentidos. Não tem sentido, não tem significado algum...    
Sartre coloca na boca de seus personagens o inevitável da morte; não uma morte que colherá Tom ou Pablo, ou mesmo Juan, em algum dia do futuro, mas sim, uma morte agendada, atrás do muro, naquela manhã, fuzilados.  
Pensar a morte é como estar em um pesadelo a ponto de compreender o que acontece, quais são os motivos e o destino daquela história. Mas nada acontece; a compreensão desliza, escapa, cai. É uma decifração que está sempre a milímetros de acontecer, como se pudéssemos pinçá-la com os dedos, mas escapa sempre, inexoravelmente.   
- É como nos pesadelos. – diz Tom. – Quer-se pensar em alguma coisa e tem-se o tempo todo a impressão de que afinal se vai compreender, mas não, a coisa desliza, escapa, cai. Digo para mim mesmo: depois, não haverá nada. Não compreendo, porém, o que isso quer dizer. Há momentos em que quase chego a decifrar... e depois a coisa me escapa, recomeço a pensar nas dores, nas balas, nas detonações. Sou materialista, juro a você; e não estou ficando louco. Há alguma coisa, porém, que está destoando. Vejo meu cadáver; isto não é difícil, mas sou eu que o vejo, com meus olhos. Seria preciso que eu chegasse a pensar... a pensar que não verei mais nada, que não ouvirei mais nada e que o mundo continuará para os outros. Não somos feitos para pensar nisso, Pablo. Pode acreditar, já me aconteceu ficar uma noite inteira acordado, esperando alguma coisa. Mas essa coisa que eu esperava não é parecida com isso; isso nos pegará pelas costas, Pablo, e não teremos tempo de nos preparar.
No lugar de “não verei mais nada” ou “não ouvirei mais nada” poder-se-ia dizer que “nada se verá ou ouvirá daí em diante”, pois não haverá um alguém lá, que devido a uma condição especial, está presente, mas nada ouve, vê ou diz. Pablo não existirá mais e é por isso que nada ouvirá, simples assim.
[Pablo, o narrador] Naturalmente, eu pensava como ele e tudo quanto me dizia eu poderia dizer-lhe – esse negócio de morrer não é nada natural. E como eu ia morrer mesmo, nada mais me parecia natural, nem o monte de carvão, nem o banco, nem a boca imunda de Pedro. Leio: “esse negócio de morrer não é nada natural”; sempre achamos injusta a morte de um jovem, de uma filha, de um pai jovem, de um homem conhecido, de um gênio... Como não somos seres naturais, a morte não nos parece natural, mesmo que argumentemos dizendo que morrer é o fim de todos. Para isso, criamos religiões, filosofias, crenças as mais variadas para dar conta de que não morremos, pois não aceitamos que morrer é natural. Para uns passamos, para outros viajamos, para terceiros apenas abandonamos uma casca informe e incômoda. Há os que dizem que subimos. Para quase todo mundo somos imortais, pois seria inadmissível morrer; morrer não é nada natural.
Então nos deparamos com dois problemas complementares: não aceitamos morrer como algo natural; não vamos experimentar a própria morte. Talvez não achemos natural, exatamente porque não experimentaremos algo que em princípio nos pertence. Mas, se olhamos para este evento que nos espera, sequer podemos dizer que o possuímos, pois para que se dê a posse devemos transcende-la, devemos estar lá depois da sua passagem. Se apenas uma pessoa no universo de pessoas no mundo, pudesse dizer “morri”, e nós a ouvíssemos, todas as religiões, filosofias metafísicas, deísmos, teísmos e panteísmos estariam salvos, sem sequer uma liturgia ou ritual. Enquanto isso não acontece, todos vamos nos salvando, nos alçando do leito caudaloso e impiedoso da vida e da morte, por sobre destroços flutuantes chamados “eu creio”.
Tom e Juan foram mortos; Pablo não. Simples assim; uns morrem mais cedo, outros demoram um pouco mais... nenhum poderá dizer “morri”, a não ser o personagem principal de O defunto inaugural – relato de um fantasma, acho que um tal Fagundes, de Aníbal Machado, que acompanha sua morte com muito interesse e um certo humor seco. Mas esta é, literalmente, outra história... 
   
Foto: http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Images_by_PierreSelim

quinta-feira, agosto 18

Sartre - o ateu que tinha esperança!

Sartre foi conhecido pela agressividade no combate verbal defendendo suas idéias. Isso ficou muito marcado em suas pendengas quase pessoais, ou demasiado pessoais, se quisermos, mas também tinha um lado, hoje muito escrito, falado e cantado, que podemos rubricar pelo termo "tolerância".
Sua tolerância, contudo, tinha nada a ver com esta pena arrogante que tinge o discurso dos deístas ou teístas; uma prepotência embalada em vestes constituídas de palavras pronunciadas em tom doce e coloquial, mas que chegam ao destino como lâminas cortantes e projéteis perfurantes. E seu fio e projétil são usados principalmente contra a cabeça dos ateus.
Toleram até convincentemente as minorias, mas, quando é o caso de ateus, regridem ao mais primitivo modo de ataque e defesa de seus pontos de vista - os ateus não merecem estar no mesmo mundo, serão julgados e levados aos infernos, seja o que isso queira dizer. Atacam nos ateus uma suposta imoralidade, derrisão, degeneração; são destituídos de coração ou inteligência (pelo menos de um inteligência que valha a pena, quero dizer, que satisfaça os critérios religiosos).
Tudo para dizer que se você é ateu é um perdido, um desgarrado, uma ovelha que não segue o rebanho, um ser vazio e sem sentido (eu ia dizer sem destino, o que Sartre talvez concordasse! Sem destino sim, mas sem sentido, isso não!). Se há uma coisa da qual o ateu pode horrorizar-se tal como qualquer outro é de não fazer sentido, pois não há como livrar-se de significar.
Para esses homens e mulheres religiosos tudo se dá de tal forma que o ateu se assemelha a um doente de doença ruim, como dizia vó Pina; uma dessas doenças que a gente não pode ficar respirando, ou encostando, ou roçando que acaba pegando e sofrendo os horrores da loucura, fraqueza moral, debilidade do espírito e outras sinônimos.
Sartre era um ateu. Assim ele o disse inúmeras vezes e de modos os mais diversos. Ele dizer não foi suficiente; há quem afirme que ele não sabia o que estava dizendo. Outro dia ouvi de orelhada, no metrô de São Paulo, da boca de um jovem com uma cruz no pescoço, que Sartre não sabia, mas era religioso. Essa talvez seja a maior violência que alguém pode cometer contra o ateu; torna-lo religioso à revelia. Pois o crente em uma dessas formas de deísmo, teísmo ou panteísmo assopram o redemoinho da arrogância dizendo que o ateu é um idiota que não sabe o que quer, quem é, para onde vai e, pior, é religioso sem o saber. Riem-se do ateu por sua ignorância; um sorriso concupiscente, voluptuoso, de quem goza com a dor alheia. Quero crer que há um ou outro religioso que de fato pode respeitar o ateu como "um qualquer" nas palavras do próprio Sartre; porém, não creio que seja o caso da maioria - que reage com espanto, dó, evitação ou mesmo desprezo pelo como vive o ateu. Tornam-no diferente, e como já sabemos, diferente não é gente.
Na juventude Sartre se defendeu (e atacou) daqueles que o atacavam por seu ateísmo. Na maturidade e final da velhice tratou apenas de dizer como poderia ser a vida sem um deus. Contudo, pagou preço alto por ter sido honesto. Sua obra acabou sendo indexada pelo Vaticano como texto que o cristão não deve ler. A arrogância do papado acredita poder dizer o que deve e o que não deve ser lido, como se o cristão fosse um descerebrado.
Na inquisição a carne de Sartre seria servida a labaredas sagradas. O fogo o purificaria. Mas o cara tinha pouca carne; pequeno e mirrado, certamente daria um espetáculo muito morno e gozo rápido.
Não bastasse o papado temos ainda a intolerância de uma meia dúzia de religiões e seitas que condenam o ateísmo.
Digredi! Onde estava eu?
Sim, ia dizer que Sartre me surpreende e encanta com sua delicadeza, respeito e diligência no trato das questões ligadas ao religioso, ao divino e à fé. Claro que não foi sempre assim. Mas no último quarto de sua vida, na maturidade intelectual, aparece um sujeito bem diferente, por exemplo, daquele escreveu "O ser e o nada". Falo isto tendo em mente o livro póstumo de Sartre, editado pelo Benny Lévy, que diga-se de passagem, foi agressivo e deselegante com seu interlocutor. O filósofo falava da esperança - de uma "esperança agora" - e parece que também falava de "qualidades" do homem crente - a misericórdia - o maior e mais honesto apelo do cristianismo, embora nem sempre cumprido pelo religioso. Penso nisto ao relembrar a crueldade do cristão para com seus vizinhos. Mas, eles também não sabia o que faziam! Em geral formavam peças num jogo do soberano, que por uma prestidigitação contumaz, estava sempre aliado ao papado. Pena para o cristão.
No livro "A esperança agora" Sartre se volta para o judaísmo. Encontra nesta forma de vida um motivo filosófico para tratar de algo paradoxal -  a esperança é sempre futura, mas ele fala dela no "agora". É simples: se se fala de esperança é porque nada está acontecendo agora, daquilo que se espera. Se espera o futuro, nunca o presente. Mas Sartre é um daqueles que podem dar nó em pingo d'água. Fazer do que se espera o agora, só com uma torção de espinha que o filósofo faria. Isso, se não tivesse falecido meses depois das primeiras entrevistas com Lévy! Uma pena. Seria talvez seu maior combate em prol da vida religiosa, mesmo sendo ele um ateu!
Sua causa era a das minorias políticas, portanto do preconceito, ainda (ou talvez por isso mesmo) que ele tenha sido vítima do maior de todos - o ter ousado viver sem Deus. E mais: ele defendia até a morte o direito de uma pessoa ter um pensamento diferente. Defendia, pois, o direito de religião; a religião torna o sujeito diferente de todos os outros... ainda que pelo preconceito!

quinta-feira, janeiro 13

Condenados a ser livres!

"Não somos nem mecânicos, nem possessos; somos piores: livres." 
Assim J-P Sartre comenta a trama do livro 1919 (de John dos Passos). Nem somos autômatos cartesianos - artefatos criados à semelhança de relógios, fontes, moinhos e outras máquinas - cujas cabeças possuem uma glândula, um ponto de intersecção de muitos tubos que levam as forças controladoras dos seus movimentos, como uma mola que dá vida ao conjunto; produtos de uma indústria exata, cuja economia interior está desde sempre já dada. Tampouco somos possuídos por uma vontade, uma paixão (no máximo uma paixão inútil, como disse em outro momento), ou um conatus (como insistiu em O ser e o nada) - uma força-impulso metafísico disfarçado detrás de seus efeitos.
Somos livres, simplesmente: embora determinados historicamente, datados, enformados pela língua, efeitos ideológicos. Contudo, isso nada deve nos impedir de dizer: "eu". Sem sermos livres nada podemos responder frente a lei; o direito nada pode contra ou a favor de um sujeito que não é livre. Foi o caso do negro em tempos de escravidão - nada devia à lei ou à sociedade e à religião (do seu dono), porque escravo. Se o sujeito é determinado de ponta a ponta, a norma não se aplica, uma vez que ele está pronto e sua vida é perfeita, mecânica, automática, não exigindo nenhuma norma para suas condutas; estas são conhecidas e irretorquíveis; nem há um sujeito que reclame a diversidade, o singular - ou resista a empastelação ideológica.
Mas não é o caso. A lei, as regras, os regimentos devem dar conta de um sujeito que não é máquina ou possuído; agente livre, perigosamente a deriva, só fazendo o que deve fazer sob coação - primeiramente da tradição e depois pela norma.
Sujeitos de direito, livres para fazer o que quisermos, por isso determinados pela norma e pelo político; condenados à liberdade, somos mais que um autômato ou pulsão, entretanto menos que o político. O que será que isso pode nos dizer? Vejamos isso noutro tempo...

quinta-feira, novembro 11

Causa sui!

"'Ser livre. Ser a causa de si próprio, poder dizer: sou porque quero; ser o próprio começo.' Eram palavras vazias e pomposas, palavras irritantes de intelectual. [Mathieu Delarue] esperara tanto tempo. Seus últimos anos tinham sido uma vigília. Esperara através de mil e uma preocupações cotidianas. Naturalmente, durante esse tempo andara atrás de mulheres, viajara e ganhara a vida. Mas, através de tudo isso, sua única preocupação fora manter-se disponível. Para um ato. Um ato livre e refletido que empenharia o destino de sua vida e seria o início de uma nova existência. Nunca pudera amarrar-se definitivamente a um amor, a um prazer, nunca fora realmente infeliz; sempre lhe parecera estar alhures, ainda não nascido completamente." (A idade da razão, 1945, Sartre)
        Mathieu Delarue espera que de um só golpe sua vida faça sentido, como alguém que se torna milionário pela loteria, sem ter feito uma carreira nos negócios ou fama nas artes ou no futebol. Sua maneira de esperar era a de empenhar-se em realizar a longa e entediante corrente de pequenos acontecimentos de uma vida normal, sem gastar mais que o necessário para que tivessem uma luzinha de vida. Sua megassena, se posso dizer assim, era ser, de supetão, livre, e ainda por cima, de modo refletido, como se estivesse no horizonte a possibilidade de ser seu próprio fundamento. Com isso, surgiria uma nova existência, portanto, um novo mundo, um novo sujeito.
     Mas, Sartre sabia, a julgar por outras personagens em contraponto a Delarue, inclusive personagens de outras obras, que Mathieu encarnava a liquefação gigantesca, irrevogável e inexorável que acometeu o sujeito do começo do século vinte, mas já anunciada desde os primórdios da Idade Moderna, em Descartes e pelos poetas europeus. Foi um rápido derretimento de apenas quatro séculos, que desmilinguiu o osso do homem - o sentimento de que era um ser uno, causa de si mesmo e centro do mundo. A criação de Sartre nada tinha de espetacular, heróico ou surpreendente; era apenas um amontoado cujo nexo consistia em duas sensações bastante singulares: uma eterna espera do momento em que seria livre, uma disponibilidade para esse ato teatral, quase inumano; e a sensação de que sua vida estava em outra paragem, que não se dera à luz de modo cabal. Esse nascimento o colocaria livre, mas deveria ser por um ato de vontade. Um outro luxo burguês, como disse o filósofo, a propósito da contemplação, logo no início de "O existencialismo é um humanismo".
    Mas o desalojamento do sujeito do centro de si mesmo já se anunciava na crítica copernicana à concepção de Cosmos afirmada por Aristóteles (384-322 a.C) e Ptolomeu (100-170). Estes tinham como certo a dualidade platônica constituída de dois domínios ou realidades. Uma realidade eterna e plena (o domínio celeste); e a outra constituída de eterno nascer e morrer, formada pelos elementos Terra, Fogo, Ar, Água, em constante interação, gerando matérias ou mundos uniformes e não uniformes, realidades que se relacionam, mas com essências radicalmente diferentes: uma é divina; a outra é humana. A divina é eterna, etérica, governando o Sol, a Lua e os planetas em geral. A humana é sublunar, governada, perecível, mortal.
   Entretanto, na medula do homem estava a essência divina, segundo cria o homem platônico-aristotélico. Além de ser a verdadeira natureza do homem ela podia chamar o homem a se auto-criar, causar-se a si mesmo. Nas palavras de Platão, a fazer uma auto-parturição (um parto de si mesmo). Contrariamente o cristão também possui uma centelha divina, que é impotente para causar a si mesmo, talvez o ponto onde começa seu afastamento do platonismo/aristotelismo.
    Pois é exatamente esse homem possuidor de uma essência divina, que combinava com o sistema cósmico de Aristóteles; um homem cujo centro ressoava com a dualidade celeste/sublunar. Conforme esse homem vai sendo descentrado, ressoando com o descentramento da Terra, há uma banalização de sua vida, uma superfluidade da existência. O homem não possui centro e não pode causar-se a si mesmo. Isso não quer dizer que aceitaríamos isso de modo passivo. 
     No passado o homem fora aquele para quem o mundo existia e também por meio de quem a realidade se erguia. Agora, principalmente a partir de Copérnico, a Terra sai do centro do universo e o homem começa a ser sujeito - um ser cujo centro não é ele próprio. Disso a psicanálise e o existencialismo vão tratar por longas décadas. A primeira tenta salvar o sujeito dizendo que ele é seu inconsciente. A segunda é mais cruel: o nada é o centro do sujeito.
    O poeta Sá de Miranda (1481-1558) já tão cedo advinhava ou estatuía a nova condição do homem moderno - um homem em conflito com seu próprio centro. Em desavença consigo próprio; mal vizinho de suas próprias fronteiras; sem poder viver em seus domínios; em uma guerra civil em suas próprias fronteiras. Irmão contra irmão, filhos contra pais, como bem exemplifica um dos versos onde é inimigo de si mesmo. O poema, uma joia da literatura mundial, é um esgar de angústia, própria daqueles que não mais podem deter o estado de sítio em que o homem moderno colocou suas próprias praças internas. O poema diz melhor:

COMIGO ME DESAVIM

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

                 (Sá de Miranda)

    Mathieu Delarue tinha saudades do tempo em que o homem podia dizer-se causa de si mesmo, centro do mundo, possuidor de essência verdadeira. Esse tempo passou. Hoje, dizer isso para si mesmo é uma extravagância burguesa, um luxo. E o luxo é sempre extravagante.

Imagem 
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sexta-feira, outubro 1

Eu sou meu próprio gosto!

     "Estou aqui, saboreio-me, sinto um gosto velho de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede." "[...] Tudo isto era tão natural, tão normal, tão monótono, bastava para encher uma vida, era a vida. O resto, as Espanhas, os castelos na areia, era... o quê? Uma pobre religiãozinha laica para uso próprio. [...] Um álibi?" "É assim que eles me veem: [aquele] que quer ser livre, como outros desejam uma coleção de selos. A liberdade é seu jardim secreto. Sua pequena conivência consigo mesmo. Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, razoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida, feita de inércia, e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas."  (Mathieu Delarue, personagem de A idade da razão - Sartre, 1945)
     Se existir é matar uma sede inexistente com sucos de gosto nauseante, é de se pensar que essa degustação de zinabre com hemoglobina, seja possível apenas a conta-gotas, homeopaticamente. Do contrário, engasgamos e regurgitamos. A vida monótona, natural, normal, como devem ser as vidas, são analgésicos feitos de horas, dias, acontecimentos sem relêvo: uma planície com raros promontórios, vales e montanhas. E quando acontece uma relevância é o drama ou a tragédia. Já com Roquentin (A náusea, 1939) personagem tomado pela viscosidade da vida e do mundo, que não chega a nenhum ápice, Sartre nos apresentava à nossa existência. Não aquela de um tobogã, mas aquela de uma viscosidade quase paralisante. A do tobogã é parente da tragédia, do mortal, do luto de lágrimas quentes. A viscosa é a da maioria que tem sorte ou azar de viver sem acidentes, sem trancos e barrancos. Da primeira todo mundo foge, da segunda é para aonde se vai quando da fuga.
     Delarue não nos poupa de sua semelhança conosco. Mesmo naqueles casos mais felizes, ou seja, naqueles em que o sujeito se livra de uma existência monótona, só o será se por meio de uma pobre liturgiazinha criada a partir de pedaços de vida. É laica, porque a tentativa de fazer uma vida com sede, acaba por desdizer a monotonia de uma vida religiosa; vida com gosto de boldo e carqueja para aliviar o estômago. Esse culto para consumo próprio, com o amargor no centro, no púlpito, evita a religião oficial com sua falta de sabor. Amargo é melhor que o insosso.
    Mas Delarue não nos dá chance para a auto-indulgência. Chama nossas vidas de "álibi", do latim, "em outro lugar". Estávamos em outro lugar enquanto a vida acontecia. A liberdade que exigimos, o habeas corpus que pedimos, na verdade é um álibi contra a acusação de que nos auto-impingimos uma condenação.  Que estamos noutro lugar; não naquele que dizemos estar. Ou que justificamos nossas vidas. Mas também pode querer dizer que nossas vidas são álibis contra aquilo do que estão nos acusando - de fazer uma vida que não nos pertence. 
    Mathieu Delarue é belo e denso; uma personagem profunda por encarnar o heterogêneo da existência - reflexões elevadas que encobrem uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia. Pungente personagem que habita os cômodos de nossa igrejinha privada chamada corpo, onde se dá o culto de nossa religiãozinha particular chamada vida.

sábado, setembro 4

Narrar é melhor que viver!

"Reconhecemos de imediato a triste abundância dessas vidas sem tragédia; são nossas essas mil aventuras esboçadas, perdidas, logo esquecidas, sempre recomeçadas, que deslizam sem deixar marcas, sem nunca comprometer, até o dia em que uma delas, igualzinha às outras, subitamente, como por descuido e à traição, enoja um homem para sempre, desmonta negligentemente um mecanismo" 
(Sartre, 1947, Situações 1 p. 37, falando do livro 1919 de John dos Passos).

Quando olhamos com uma lupa as vidas que desfilam defronte nossas faces, como elas nos parecem carecer desta raridade do teatro ou do cinema; o trágico é que o cinema, o romance, o teatro, e mesmo as novelas em sua longeva exposição ao nosso olhar, são olhares com lupas. Por quê não parecem com a vida real olhada pela lente de aproximação, se usam o mesmo truque de aumentar os detalhes para alcançar dramatização? Um resposta possível (e, é certo, não a única) é que se trata de uma narrativa. A vida tem a desvantagem de acontecer em primeira mão. De não ser um acontecimento contado, fabulado. 
      Foi Sartre, também, pela boca de um de seus personagens, a nos propor que narrar é melhor que viver. A narrativa daquilo que vivemos é certamente mais atraente que aqueles comezinhos instantes de existir, sem importância alguma, que fazem a maior parte do tecido da vida. Mas basta nos dispormos a contar o vivido e os fatos mais banais tomam cor, encorpam e brilham!
      Também não adianta muito usar uma lente panorâmica para ludibriar esse sentimento de  "deslizar sem deixar marcas". Uma vida inteira de ir e vir, do trabalho para casa, da casa para a desgastada praia de sábado e domingo, ou do feriadão, da casa para o trabalho, academia, cinema no sábado a tarde quando não é possível ir a praia etc., pode ser um frágil mecanismo a desmontar sem saber quando e nem por quê. O panorama de uma existência é salvo por uma biografia, uma nota numa revista, uma fotografia... uma narrativa.
      A abundância das existências não pode nada contra essa sensação de que só fazem sentido ao serem narradas em segunda mão. Daí, penso eu, depois de algumas análises de sujeitos apanhados pela drogadição, que o abuso do álcool, o uso de drogas químicas seja uma tentativa de narrar a vida sem vivê-la, o que, além de dramático, é trágico. São gritos de socorro contra a abundância de existência sem tônus.
      A psicanálise freudiana ou sartriana, embrea uma narrativa que acaba se tornando uma segunda vida, uma vida paralela, que acaba construindo uma biografia pela fala. Em muitos casos será a primeira vez que uma pessoa veio a ter uma vida para viver - aquela da narrativa psicanalítica. Um pouco de brilho narracional aos fatos de vida esboçados e ameaçados de desmilinguir talvez seja a melhor maneira de viver uma vida viva...
     Sartre propunha fazer da vida uma obra de arte. Será que podemos pensar em uma criativa narrativa de si mesmo como a arte de viver afastado desta tristeza que chamou atenção?

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