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quarta-feira, janeiro 6

Sabiás, alma-de-gatos e árvores!

Metrô Santa Cruz, 07:00
Não sou daqueles que têm os cinco sentidos dos mais aguçados, até pelo contrário. Meus sentidos me dão experiências abaixo da média do esperado. Acho que nascer sem sentidos muito desenvolvidos me fez prestar mais atenção para certas nuances da experiência corporal. Por exemplo, ao cheirar um buquê de flores percebo mais de um perfume em uma mesma flor. No centro da rosa há um cheiro e nas bordas de suas pétalas outro aroma. O Sol pode lhes dar um perfume mais doce; em manhãs mais frescas o orvalho encolhe seu cheiro e assim por diante.
Mas, o sentido que mais se especializou em mim foi mesmo a audição. Talvez devido a um acidente, ainda no exército, quando o barulho infernal dos canhões, contra ouvidos já frágeis, acabou dessensibilizando de vez minha audição. Como tive que prestar muito mais atenção ao que se passa por perto, atribuo a isso minha capacidade para ouvir alguns sons, em detrimento de outros. Pode-se dizer que privilegiei alguns barulhos desprezando outros, para sobreviver a algazarra da vida.
Coloco na conta da infância vivida entre árvores e bichos de toda natureza, minha escolha por ouvir aves e outros sons no meio dos sons mecânicos da cidade (junte-se a esta conta minha experiência como escoteiro do Dom Bosco e depois uma longa estadia nos contrafortes da Serra do Cervo). Entre todos os barulhos que as ruas produzem identifico o canto do sabiá de começo da noite entre as árvores, assuntando seu ninho. Ou, no meio do dia, os sanhaços e bem-te-vis citadinos numa gritaria danada quando dois machos e uma fêmea exercem seus buliços sexuais.
Há algum tempo descobri uma verdadeira trilha entre as ruas da Chácara Inglesa, repleta de pequenos ninhos e tocas onde vicejam ovos e filhotes, que depois vão fazer destes limites seu mundo. Um casal de sabiás, fez seu ninho em uma sebe bem fechada, que só pude achar devido a vozinha choca da fêmea. Sua irritação com minha proximidade e a tentativa do macho de me desviar a atenção me levou direto para seu esconderijo, onde dois filhotes dormiam aconchegados. Fiquei ali olhando sua respiração rápida, inflando as pequenas costelas, olhinhos cerrados. Achei que estavam bem guardados de gatos e outros predadores.
Acompanho há duas semanas o crescimento de dois outros filhotes, desta vez de pardais, que fizeram seu ninho em um semáforo (pasmem!) que fica no alto e em cima da rua. Em baixo passam, além de carros de toda espécie, ônibus articulados, com seu barulho infernal! O casal achou que ali está protegido o suficiente.
Sabiás, bem te vis, sanhaços, pombos, perequitos, pardais, são muito comuns nas cidades, principalmente nos bairros mais residenciais. Um pouco menos comuns as curruíras e sebinhos. Convivemos tão bem com eles, que nem lhes prestamos atenção. Não surpreende encontrá-los em arbustos no jardim, na janela nos olhando com seus olhinhos inocentes e curiosos e até mesmo dentro de casa catando alguma faísca de comida. No entanto, nunca me acostumo com sua aparição; sempre levo um "susto" com sua presença em meu caminho.
Foto: https://www.flickr.com/photos/flaviocb/304437095
Entretanto, uma surpresa e tanto foi ouvir, dia desses, um gemido de gatinho novo seguido de um canto de bem-te-vi vindo do meio da folhagem de uma frondosa Sibipiruna, duas ruas acima de casa. Sabia que estava para ver um pássaro bem mais raro. Procurei um pouco e logo identifiquei uma longa cauda de penas marrons e manchas brancas, que eu bem conhecia da minha vida no campo. Tratava-se de uma Alma-de-gato, com seus olhinhos desconfiados. Por quê alma de gato? Tenho minha teoria bem particular. Ela escala os troncos, apesar de poder pular de galho em galho quando necessário. Pode cantar como um bem-te-vi, porém o que chama a atenção é que mia como gato bebê. Acho que por isso acabou sendo chamada por alma-de-gato. Ela não esperou muito minha contemplação. Logo subiu pelo tronco até quase o topo e depois mergulhou no ar corcoveando no seu jeito inconfundível de voar, sem nenhum pio para que nenhum gatuno pudesse saber onde é seu ninho... e desapareceu entre o casario. Fiquei ali, um instante, saboreando o momento, ciente de sua raridade. Pode ser que leve meses até que nos encontremos de novo. Valerá a espera.  

terça-feira, abril 7

Em caso de emergência...!

Metrô Santa Cruz: 07.04.15 - 08:05h
Escorrego para dentro do trem, resistindo a uma vaga de gente que sai. Fico feliz de encontrar um lugar que não preciso ficar olhando para o queixo ou o pescoço de um colega ou uma colega de aperto cidadão. É meu lugar preferido, já que andar de metrô é minha realidade, um pouco escolhida, outro tanto imposta. Acho que contribuo com o planeta se usar este transporte um pouco e outro pouco as pernas e solas dos sapatos. Considero sempre a possibilidade da magrela, ou bike seu nome inglês. Além do quê, é insano usar carro para se deslocar por três ou quatro quilômetros - se tenho tempo, não tenho dúvidas, opto pelo solado do sapato. Há de se prevenir com um guarda chuva e com um bom cálculo das distâncias. Se vou ter que andar mais de uma hora, vou de ônibus e metrô.
Igreja de Nossa Senhora da Saúde
Bem, como dizia, estou ali, no meu lugar preferido, bem em frente àquele espaço vazio entre a porta e as barras de apoio. Penso que serão apenas quinze minutos olhando para as letras gravadas por ali. Olho-as com bastante atenção. Dizem, que nas emergências, devo quebrar uma estrutura de plástico e puxar uma argola. Fiquei pensando em quebrar uma com um karatê e treinar o puxamento da tal argola. Afinal, por que não treinam a gente nisso?! Não tenho certeza de que consigo quebrar com um golpe de mão a onipresente redoma de plástico e que ao puxar a tal argola não ficarei com um fio na mão e todos olhando para mim dizendo: você usou de demasiada violência com a inocente argola! Agora vamos todos morrer por causa de sua incompetência para avaliar a situação!
Não consigo imaginar porque não fazem treinamento de quebrar o protetor e puxar argolas do metrô - aqueles treinamentos de bombeiros, sabem? Eu iria as seis da manhã numa meia dúzia de domingos - inclusive nos feriados - só para aprender a puxar argolas. Ficaria para sempre treinado no dito ofício e me sentiria muito seguro! Poderia anunciar a todos, em alto tom e boa dicção, quando entrasse nos metrôs: "podem teclar a vontade no whatsapp ou dormitar babando e tranquilos, aqui vos fala um expert em puxar argolas do metrô! Sua vida está a salvo!" Tenho certeza que cem por cento dos cidadãos querem fazer esse treino, desde que seja em suas horas vagas; penso mesmo que gostariam de treinar no dia das mães, um domingão, ao amanhecer, aprendendo a salvar vidas em homenagem àquelas que nos deram a vida. Ia longe com o pensamento quando o impensável aconteceu!
Uma garota, de seus 16 anos, escorrega para dentro do espaço entre eu e a parede onde está a tal argola. Sem nenhum constrangimento fica a vinte e três centímetros do meu nariz. Tem mais ou menos a mesma altura que eu e só vejo sua fronte com cabelos esticados a máquina, porque mal se posiciona, começa a teclar freneticamente no celular. Com o aperto das pessoas a volta, tenho duas opções. Olhar para as propagandas das paredes, ler e reler as instruções de como puxar a argola ou olhar para a menina. Opto pela segunda. Ela nunca saberia que estou olhando-a, detalhadamente, centímetro por centímetro. Olho-a com uma lupa...
Das orelhas descem fios brancos de plástico, que desaparecem por dentro da roupa; são orelhas morenas e belas, bem recortadas, destas que eu desenhava para a editora Ática num livro que ensinava a desenhar. Eu diria que suas orelhas são um modelo de orelhas. Os cabelos lisos a força, são escuros e poderosos, tocando-lhe os ombros com decisão. Brilham lindamente e são penteados com os dedos a cada 32 segundos. Contei para ter certeza.
É uma destas jovens muito belas, de lábios exuberantes e sobrancelhas bem desenhadas, feitas de uma mistura bem amalgamada de raças de vários continentes. Olhos de castanhos bem escuros, em cujo centro pululam imagens do whatsapp e facebook. É tão jovem que não vejo no rosto as marcas das refregas com a vida, com os desejos e os amores vividos - é lisa como uma porcelana morena. Nesta pele virginal, em alguns anos, poderemos ver os desenhos de suas caminhadas pelo mapa mundi de seu viver; mas, por ora, é puro viço de flor recém florescida. Não que não se perceba certa ansiedade com o aluvião de mensagens que chegam em suas mãos. Já estamos há alguns minutos nos "encarando" e não ergue os olhos da telinha alucinante. Vejo algum sorriso nascer de tempos em tempos nos cantos da boca e até mesmo um quase riso, que mostrou uma bela carreira de dentes. Pensei nos meus dentes empilhados e tortos e imaginei o quanto gosto que seja tão personalizados. Meus dentes são customizados. Nada da pasteurização dentária dos aparelhos de desentortar bocas. Ela tecla mais e mais, sem se incomodar com nossos 23 centímetros de distância, entre meu nariz e sua testa.
Tenho um pensamento incontrolável. Mostrar que também sei teclar freneticamente para competir com ela. Afinal meus mais de 40 anos a mais não petrificaram as juntas dos polegares (apesar de doer a beça) e posso provar numa competição, ali mesmo! Podíamos chamar o jovem com seis piercings na sobrancelha esquerda e tatuagem de dragão no pescoço, para ser nosso árbitro. Acho que é imparcial e pode nos ajudar como juiz. Se eu ganhar ela terá que me ensinar como postar no instagram; se ela ganhar, ensino-lhe a ler Dom Quixote de La Mancha. Bem, talvez ela não goste de Dom quixote. Quem sabe Cyrano de Bergerac... Bem, o jovem também tecla feito louco no seu celular e não presta atenção em nós. Não vou conseguir convencê-lo a nos ajudar na competição!
Uma voz anuncia que a estação Sé será a próxima e que devemos descer pelo lado esquerdo do trem. Ela liga a câmera frontal e se olha satisfeita com o próprio rosto. Penteia os cabelos com a mão aberta e dedos separados imitando um pente; ajeita a bolsa no ombro. A porta se abre e ela sai com toda a pressa da juventude. Pude voltar aos meus pensamentos. Será que se eu der uma tapona de lado consigo quebrar a caixa plástica com mais facilidade?  

quinta-feira, fevereiro 12

Basic look, forum e hábitos!


Barra Funda, 10.02.15;14:00h

     Uma torrente de jeans, camisetas e tênis jorra apressada para fora do metrô. Cada uma das partes desta golfada de vestimentas casuais tem o seríssimo intuito de chegar em algum lugar e se escoa à minha frente sem se ocuparem com minha presença - nada significo, anônimo e de jeans, camiseta e tênis também! Noto, de vez em quando, que uma vestimenta destoa da maioria, tanto nelas quanto neles. Nelas, os sapatos de salto alto não pedem licença e avançam resolutamente no coração da horda de jeans, batendo secamente contra o piso indiferente, num trottoir indiscreto. Neles, costumes prêt à porter, meio mal cortados, em certo desalinho e escolhidos fora da numeração, sobre camisas amarradas por gravatas baratas, se deixam levar pelo fluxo que os empurra para o gargalo das catracas.
     Apurando os ouvidos e olhos descubro que estes peixes fora dágua, estão indo a um templo. Não aqueles dos padres, pastores ou outros assentados da espiritualidade. Um outro templo em que togados dividem espaço com estes engravatados e mulheres empertigadas no alto de seus sapatos. Lá se fala da religião do direito e o deus é a lei. O incenso que lá queima é a escrita, os apensos dos processos; o sino que lá retina é a sentença que salta em firulas, elegantemente, da boca do magistrado em seu mandamus, o poder de mandar que se aplique o dispositivo divino.
     Embora eu não seja a criação de Arthur Conan Doyle, sei, por dedução, olhando os volumes de papéis em seus colos, com umas capas esquisitas; ou de ouvir perguntas do tipo "qual a saída para o forum" ou "quero ir ao forum", feitas por alguns jeans-camiseta-tênis, que estamos pertos de um destes amados e temidos templos. Forum significou praça pública entre os romanos - um foro, daí o atual "fora" em contraposição a "dentro". Por um caprichoso deslize de sentido, o que era forum virou dentro; uma barafunda de significados! Por uma luta com as palavras o forum é um dentro que é público, mas proibido para o público. Só entra lá réus, acusadores, defensores, juizes, policiais e um ou outro interessado. Digo isso, porque parece que ninguém tem vontade de ir a esta praça pública chamada Forum assim, assim, do tipo: "hoje acordei com vontade de ir ao forum" e coloca na mochila um sanduíche, refrigerante e uma necessaire com os itens básicos de higiene, uma toalha e vai fazer um piquenique no forum - que é dentro e não é público. E se fosse, não parece que queremos entrar neste foro. Aliás, piquenique de domingo no forum nem pensar!
     Me perco em pensamentos mergulhado em uma miríade de pequenos detalhes que separam os ternos-com-gravata dos jeans. Os primeiros obrigam seus portadores a se alinharem, manterem postura ereta e semblante mais sério que a maioria. Seu andar é um exercício de poder, de preocupação, de esmerada consciência de si. Os segundos são mais relaxados, cordiais talvez, com andar quase indolente e tranquilo. É claro que se eu olhar com mais atenção ou conversar por cinco minutos com qualquer deles, gravatas e jeans, me surpreenderei com vazios d'alma, amor e medo. E nisto vejo a trágica beleza do humano agarrados aos seus hábitos - jeans ou gravatas - sobrevivendo à dura realidade, fazendo com todo amor e detalhes o papel que lhes escolheram viver.
     Agora tenho que levar meus jeans-camiseta-tênis ao seu destino...    

domingo, janeiro 26

Escadas, Violinos e Chats Potés!

Metrô Ana Rosa - Semana passada - a tarde
       No metrô quase sempre convivem escadas rolantes com as comuns. É uma convivência pacífica de coisa com coisa. Sem labuta pelo terreno ou pelos limites, sem reivindicação de anterioridade... apenas estão lá, em seu eterno estado de objeto que é o que é, sem distancia de si mesmos, um fenômeno que acontece comigo. Sem mais nem porquê e lá estou eu, longe de mim, me olhando como se fosse um outro. Estrangeiro de mim, fico me fitando em nesgas de espelhos, vidros quase transparentes e nas eternas câmeras de vídeo bisbilhotando meu passeio. Isso quando não dou para criticar-me, julgar minhas ações e lamentar-me de minhas limitações. E isso tudo como se fosse um policial, promotor e juiz de uma corte que não se apieda dos meus limites.
       Com as escadas isso é diferente! Para serem vivas lhes emprestamos metáforas e metonímias vivificando-as, tal como fazemos com outras coisas que nos circundam, ou nos belos desenhos animados de todos os tempos, onde as coisas sempre foram vivas. Há muito, os objetos são animados para nos contar histórias que nos falam de nós para nós mesmos. Isso quando eles não têm poderes extraordinários, com ou sem encantamentos por bruxas, fadas, gênios e uma plêiade de seres das trevas ou das luzes que são especialistas em colocar alma onde não as vemos. Os artistas em geral também encontram alma nas coisas ou lhes infundem consciência, sentimentos e sensações, que nós, os mortais escalpelados deste dom, ficamos devendo. Nada sabemos desta arte. Não que não saibamos fingir - todos podemos dizer às nossas crianças que o bichinho de pelúcia sente dor, chora e ri, e ama como gentinha. Mas, em geral pouco passamos disso. Coisas são coisas e ponto final! Nos servimos dela, e esse é seu "dom" infundido nelas pelos engenheiros, arquitetos e outros iluminados mais ou menos criativos.
       Bem, e foi o que aconteceu recentemente. Lá estavam as escadas. Uma rolante e a outra não rolante. E eu com aquele impulso estranho. Sempre que me deparo com escadas não me contenho. Me vem uma vontade danada de subi-las degrau por degrau, de preferência mais rapidamente que num passeio. Isso naturalmente exclui as rolantes, pois com elas esse gozo pode ser rápido demais! Mal começo a subir seus metálicos degraus e já estou no seu topo, precocemente. Evito-as, portanto.
       Talvez esse hábito venha dos tempos de artes marciais, em que não se podia perder nenhuma oportunidade para manter as pernas fortes, e nada mais exigente que escadas, especialmente se subimo-las com certo ânimo, como se estivéssemos apressados, perdendo o ônibus da baldeação ou um encontro qualquer. Corri muito por escadas numa época que tentava competir comigo mesmo, nas maratonas nacionais de São Paulo e Rio de Janeiro, da São Silvestre ou das corridas menos famosas, tipo Circuito Pão de Açúcar.
       Confesso, contudo, que subir ou descer escadas apressado, pode ser motivo para perder uma ou outra beleza que ressalta da mesmice dos dias de quem as usa. A prova cabal disso se deu nesse dia, quando subia as escadas do metrô, como quem vai sair para as baixadas da Aclimação. Mal subi três degraus, decidido a sobrepuja-los, satisfeito de ter cedido a esse vício contumaz, e ouço uma melodia celeste. Imediatamente freei o ritmo. Eram acordes de violinos ciganos me entrando pelos ouvidos e, tal como uma flauta de Hamelin, conduziram-me, embora rato eu não o seja, ao final das escadarias. Entendi que precisava subir devagar, um impulso contra o outro - vontade de fazer meu vício prevalecer versus ir bem devagar e me deixar inundar pelas notas etéreas. Derrotei-me pelo segundo.
       Conforme subia, degrau a degrau, a música ficava mais clara e a sensação era mais gostosa. De onde provinha tal maravilha? Pensei que o metrô agora tinha atingido sua perfeição; enquanto andava por suas entranhas de cimento, músicas maravilhosas fluíam por suas paredes e escadas. Era a glória! Zeus tinha ouvido minhas preces! Agora tinha uma trilha musical das profundezas!
       A certa altura já podia ver os últimos degraus e as pernas de duas pessoas, um par delas era feminino. Caixas de instrumentos com algumas moedas e notas, mochilas sobre um quadrado de tecido e enfeitando tudo duas figuras humanas, com violinos sobre os ombros! Um homem e uma mulher, jovens, parecendo saídos de um cartão postal francês, tal como naquele filme de Woody Allen. Ele, descendente de negros, vestia jeans e sapatos tipo all star, colete a moda belga, camisa de mangas compridas; ela, vestia uma bata colorida e esvoaçante; ambos de chapéus de abas pequenas - o dela azul, o dele preto.
       Fui subindo os últimos degraus em slow-motion; não dava para fazer de conta que uma magia não estava acontecendo! As varinhas ou réguas de violino deslizavam cordas sobre cordas e o mundo ficava melhor naqueles metros alcançados pela música. Formava-se ao redor do dueto uma dimensão outra, criada pela beleza que nos entrava pelos tímpanos e ressoava na caixa do peito.
       Passei por eles, me instalei por alguns minutos em um canto da construção e aguardei um intervalo para ter a coragem de me afastar. Depois fui. E agora acrescentava mais um modo de homens fazerem coisas ficarem vivas - verdadeiras extensões de seus corpos, aqueles violinos viviam tanto quanto nossos brinquedos de infância. Fiquei pensando que os instrumentos depois iam dormir aconchegados em suas caixas, felizes por terem nos dado uns minutos do sublime no mar de cotidianidade em que vivemos...
Nota de janeiro de 2017 - Não encontri mais o link para ouvir Les chats Potés

quinta-feira, dezembro 26

Django, Pharmakon e Lawrence da Arábia!


Luz-25.12.13 09:55h
Desde que me enfeiticei pelo cinema, antes de ter uma tevê em casa - o que só se daria 4 anos após o embruxamento pela telona, já em São Paulo - sempre quis ter uma trilha sonora enquanto ia vivendo meus dias. Em minha fantasia uma música maravilhosa fluía por entre as árvores da avenida Curitiba, em minha cidade natal, escondidas em caixas de som estrategicamente colocadas nos caminhos que eu faria. Como fantasias se esbatem com a realidade, não conseguia imaginar como as caixas tinham sido colocados com seus tweeters, nem como se deslocariam até o Jardim Adriane, onde morava, bem depois da linha do trem, no meio do pasto.
      Enquanto não solucionava esse pequeno problema, enlouquecia semanalmente, nos três ou quatro cinemas da cidade, gastando algumas moedas ganhas como guarda mirim, num tempo em que menor trabalhava, se fosse das vilas e arredores. Viajava para o velho oeste com a música de gaita bordando o deserto, e o assobio de Django, retocando o clima de tensão no faroeste. Particularmente um que tinha como motivo um dólar furado, que mostrava o milagre de uma providencial moeda no lugar certo e na hora certa - desta vez cara e famosa - salvando a vida do mocinho. Numa das inúmeras vezes que assisti o filme do dólar furado, ao sair do Cine Fênix, ouvi um senhor dizendo para sua senhora: homem de sorte! Ao que ela retruca: sorte uma ova! Foi a mão de Deus!
      Para mim, interessava que o ar era impregnado de som e a vida andava noutro ritmo. Um ritmo que só a música podia imprimir na existência. As imagens passeavam na tela e eu ali, rendido, sequestrado do mundo sem gosto e desmusicado da realidade, gozando daquele outro mundo onde tudo, mesmo nas histórias mais tristes ou violentas, era brilho e som. Sabia de uma coisa - o cinema era mais emocionante que a vida.
    Descobri estes templos de belas mentiras, aos onze anos. Encontrara meu pharmakon mais duradouro. Anos mais tarde, pensei em ser crítico de cinema. Declinei da profissão. Ainda bem, pois teria perdido minha infância, e ficado adulto.
      Embalado por estas lembranças, olho as inglesas formas da estação da Luz; o metal curvado fazendo belas barras que sustentam o teto sobre os trilhos dos trens que vão à periferia e cidades derredores. Ali embaixo, uma garotinha senta-se no chão e atira moedas deslizando pelo piso e um homem jovem para cada uma delas com gestos precisos, ora com as mãos, ora com um pé e as atira de volta, tomando cuidado para não ferir a pequena. Uma mulher de traços nordestinos, suaves e arredondados, olha a cena, com olhar descansado e sem compromisso.
      De repente, como numa cena de filme de scorceses e hitchcockes, pai e filha permanecem neste jogo singelo, alheios ao mundo; uma pomba desce e pega palha de uma caixa de presentes jogadas em um canto, voa verticalmente, num balé milimétrico e desaparece atrás de uma coluna curva; um rapaz dança cadenciadamente uma música inaudível; um outro casal se enrodilha num rito sexual sem muita paixão - ele alheio, com olhos numa cena que não diviso, e ela, performática, beija-lhe repetidamente a bochecha esquerda; uma mulher chora sentada em um dos bancos de plástico; três homens vêm vindo em câmera lenta igual em Laranja Mecânica - tal como na cena em que Alex caminha com seus comparsas, sob um trecho da nona de Beethoven. A cena só é possível porque estamos em um feriado; pouquíssimos passageiros na plataforma britânica e uma letargia causada pelas ceias de meia noite com maionese regada a refrigerante.
      Pela janela do trem, que faço de conta que é uma tela, olho a cena enquanto o trem vai saindo devagar. As imagens escorrem pelos olhos. Nada retumbante como em Hollywood; até mesmo pelo contrário - uma cena sem clímax. No entanto, como numa destas magias cinematográficas, que misturam nostalgia, inventividade e música, assisti tudo se distanciando ao som de Era uma vez na América, de Ennio Morricone, e em câmera lenta, como no filme de Kubrick.    
      Nunca tive paciência para andar com o radinho de pilhas nas orelhas. Tentei o toca-fitas e depois o walkman. Nada se compara aos aparelhinhos tipo M-alguma-coisa ou os celulares. Me rendo à fantasia. Finalmente minha vida pode ter uma trilha sonora. Pena que as aventuras que me aguardam nem se comparam aos Canhões de Navarone, Lawrence da Arábia, A Ponte do Rio Kwai, Intriga Internacional, Contrastes Humanos, Uma Aventura na África, King Kong, Aguirre e a Cólera dos Deuses, Rio Vermelho e outros, que assisti escondido pelo lanterninha, um amigo a quem favoreci ficando em seu lugar na bilheteria do Clube 28, em troca desta contravenção.
      Pensando bem, essa foi uma aventura e tanto...


domingo, dezembro 15

Voltaire, Sartre e o melhor dos mundos possíveis!

Luz: Sábado - 20:00h

A luz do dia se esvai exatamente enquanto caminho para a saída do metrô que dá para a Rua Mauá. Tenho uma certa reverência por este nome... "Mauá" me soa bem aos ouvidos e nem sei ao certo qual a referência. A esquina entre a Mauá, que ladeia a estação da Luz e a Rua Cásper Líbero é a mistura amalgamada de figuras bem desenhadas dos inferninhos. Talvez uma extensão ou deslizamento da antiga Boca do Lixo lá pelas bandas da Praça da República. Nesta hora, num sábado, noite azul escura no céu, a cena é dominada pelas prostitutas sexagenárias e uma centena de homens de pouca idade tomando cerveja nos beirais de pequenos hotéis rescindindo a cloro. 
Apesar da aparência um tanto agressiva, estão ali de boa fé, na sacristia do sexo, e não estão ligando para nós meros passantes. Só querem seu quinhão de alegria numa semana que os triturou de alto a baixo, de nuca a calcanhares, noutra sacristia - a do patrão. Estou ali de passagem e não pretendo ficar mais que o tempo de, a passadas decididas, ganhar a direção da antiga estação de trem Júlio Prestes. Saio do metrô que dá para a Cásper, viro nos calcanhares e tomo a Mauá. Resolutamente. Vai que nem todos ali são de boa fé.
       À direita a bela construção da Luz, à esquerda uma série de prédios corroídos pelo tempo. Passa por mim uma pequena puta, corpo magro, quarenta e cinco quilos, carregando no ombro direito um rádio a pilha, onde toca uma música bem cadenciada, um ritmo dançante, que desconheço. Mais a frente um homenzinho também magro, copo de cerveja na mão, dança gostosamente na calçada para só tropeçar no chão irregular e quase cair à minha frente. Mas, bêbados se equilibram melhor que praticantes de taichi. E ele ficou em pé, grotescamente ereto e me cumprimentou com um sorriso bobo. Devolvi o cumprimento com o sorriso mais bobo que eu podia desenhar na cara e não dei motivo para conversa. Vai que a conversa era das boas... e eu tinha um compromisso logo adiante.
  A Júlio Prestes me dá sensações estranhas. Não passei ali mais que meia dúzia de vezes nos quarenta anos que conheço São Paulo. Mas foi em suas calçadas que pisei o solo paulistano em 29 de dezembro de 1973. Numa tarde quente e abafada. Chegava de Apucarana depois de uma longa viagem que começara no dia anterior. Me lembro que olhei muito tempo as fachadas do prédio, com os olhos mal dormidos sendo cozidos pelo calor que vinha da construção. Depois tomei o rumo da Penha, levando bagagem acima de minhas forças.
       Mas, agora estava ali, a convite de Vanusa Barbosa, uma das coralistas do Coral Municipal da Cidade de Santo André, para assistir "Candide", uma pequena ópera, escrita por Leonard Bernstein, bem engraçada, baseada numa sátira escrita por Voltaire. Entro na Sala São Paulo e não reconheço o lugar que um dia frequentara por algumas horas como passageiro do trem que ali freara rodas. Fico desorientado. Mas logo retomo o porquê estava ali. E minha estação de trem vai perdendo significado para o espetáculo irreparável que se descortinou. 
Já conhecia Cândido, ou Do Otimismo, ao ler Voltaire. No entanto, a leitura de outro filósofo, desta vez Sartre, "o Voltaire de nossa época", como foi dito pelos franceses, me é mais saborosa. Enquanto no século das Luzes o iluminista foi defendido pelo próprio rei, que o deixou livre para pensar, Sartre foi deixado livre pelo próprio Charles de Gaulle, a quem o filósofo fez tanta crítica que um de seus ministros sugeriu sua prisão. A frase famosa do então presidente da França foi mais ou menos esta: "Não se prende um Voltaire", repetindo seu antepassado. Um ato de cavalheiro.
         Voltaire batia seu látego verbal contra muita gente, mas especialmente contra Leibniz, que nutria uma otimista (cândida) visão de mundo. Contra o slogan "o melhor dos mundos possíveis" de Leibniz, Voltaire lança uma campanha de deboche e descrédito, com um humor ácido e cortante. Inventa outro discurso: "devemos cultivar nosso jardim", um dito que merece leitura, uma vez que é a resposta do filósofo ao otimismo leibniziano. 
A peça de Leonard Bernstein, pelas bocas e corpos de vários corais, muitos cantores, maestro impecável, fez jus ao Candide. Nos fizeram rir de nossa condição humana, embora eu tenha visto um ou outro movimento contrafeito na platéia. Contudo, não se prende artistas por dizerem sobre nossa alma!
Se todos os que estavam assistindo Cândido pegassem o metrô da Luz à 00:05 de hoje (domingo), saberiam que mundo viceja pela Mauá, Cásper Líbero, Aurora, Brigadeiro Tobias, Duque de Caxias e uma dúzia de ruas que desafiam o otimismo. São cândidos e cândidas que, definitivamente, desdizem o "melhor dos mundos possíveis" leibniziano. Mais parecem confirmar a sátira de Voltaire. O cheiro de cola, crack, álcool, tabaco, as vozes empasteladas pelo vício, certamente empanariam o coro do otimistas. Muitas cenas da ópera se descortinariam à sua frente, sem retoques...
Um pouco antes de entrar na Luz, um homem se aproxima e pede cigarro. Digo que não tenho.
- Não tem ou não fuma?
- Não fumo! 
- Ah bom!
- Quer um dinheiro para compra-los?
- Não, dinheiro eu tenho, só estou com preguiça de ir comprar!
Faço um gesto de mão e cabeça, dando a entender que não posso ajudar. Me enfurno no metrô e vou para o "meu jardim", seja lá o que for que isso queira dizer...  


http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/30/imagens/i276736.jpg

quarta-feira, dezembro 11

Only Jesus Saves, a gramática do sexo e a faixa amarela!

Sé. ..
08:15 - 11/12/13
     Ouço uma linda voz masculina cantando algo que inicialmente se confunde com o rilhar do aço do metrô; mas sinto que seu timbre habita entre suave e profundo, com um curioso sotaque estrangeiro. Vem detrás e do meio da multidão que intenta entrar no vagão usando cotovelos e ombros. O dono da voz, como todos nós ali, ajoelha-se na liturgia da opressão horizontal da qual nos ocupamos cotidianamente - digamos o trem nosso de cada dia.
     Na cidade, trens, ônibus e metrôs democratizam a agressão e emparelham homens e mulheres na função de chegar a um destino. Por exemplo, a tradicional fragilidade feminina - o sexo frágil, assim dito - empurra, ombreia, dá joelhaços e pede desculpas como qualquer outro ser vivo movido a testosterona. Não há diferença entre aqueles seres suaves, de batom e brincos brilhantes, vestindo jeans entrando no rego de tão justos, e aqueles outros seres, um pouco mais rústicos, brincos brilhantes e jeans esmagando os excedentes corporais. Quanto ao batom receio não ter visto nenhum portador de testosterona usando-o. Creio que se trata da hora. Talvez a noite concedessem para uma corzinha a mais nos lábios.
     A voz chega mais perto. Não consigo entrar, nem sequer avançar no campo de batalha. Pois se trata de um. Onde não viceja fraqueza. Senhorinhas septuagenárias metem socos e bolsadas para descolar um vácuo de trinta centímetros quadrados onde se instalam ofegando. Os pulmões devem ter se encavalado sobre o coraçãozinho, para caberem em tão pequeno espaço. Impropérios grassam pelo vagão, quase sempre à meia-boca. Uma voz metálica insiste: "Fique atrás da faixa amarela! Ela é a sua segurança! Evite acidentes!"      É claro que se a gente ficar atrás da propalada faixa nunca entraremos no danado do trem. Sempre tem uma dúzia de espertinhos que entra exatamente pelo espaço deixado pelos obedientes.
Agora ouço o canto nitidamente. "Only Jesus Saves!", depois repetido "Somente Jesus salva!" Repetido em duas outras línguas que fiz de conta serem o japonês e o árabe - o primeiro por causa da memória de meu professor de judô e o segundo por causa da Cris, que me martela os ouvidos com um 'inshalah!!', ou algo assim, quando me vê, depois de muito tempo sem visita-la. Os cotovelos da voz devem ferir mais que os meus, porque, de fato, ele já está há um passo de mim, enquanto avancei só três centímetros.
     Há quem não está presente, apesar de vermos seus corpos. Certo casal nem presta atenção à barafunda de gente. Ele, bem maior, cuja testa e nariz se alinham sem aquela curva que segura nossos óculos; ela, pequena e bela, rosto brilhando de prazer. Ele a pega com uma das manoplas na pequena nuca e com o polegar gigante acaricia sua orelha esquerda estreitando-a na barriga. A outra manopla aperta docemente seu quadril acima do cóccix. É a gramática do amor sexual resistindo ao empastelamento metropolitano.
     Levo um empurrão enquanto ouço na nuca a voz gospel cantando aquela ladainha agradável. O empurrão me coloca, de um lance, no vagão. Agradeço a ajuda. Uma mulher jovem liga a câmera invertida de seu celular e investiga diligentemente as sobrancelhas penteando-as com as pontas do indicador e médio, passa algo que lhe dá brilho nos lábios e joga, com golpes de cabeça, os belos e longos cabelos para os lados e para trás, uma, duas, três vezes. Na terceira consegue desenrosca-los da mochila de um dos agonistas da cena. Com isso faz com que eles despenteiem e pareçam naturais. Gostei do efeito.
     Atrás dela e entre três ou quatro ombros vejo um japonês de mais de cinquenta anos, um dos braços para o alto em cuja mão segura uma sacola de pano azul, que acredito estar recheada de isopor de tão leve que parece. Em silêncio mostra, a cada dois ou três segundos, um dos lados dela. Em um lado está escrito "somente Jesus salva", mais abaixo letras em japonês ou chines, do outro lado "only Jesus saves", em baixo letras em árabe ou outra escrita parecida.
     Parece que sou portador de síndrome persecutória, mas tenho certeza que ele me escolheu entre todos e me olha fixamente através das grossas lentes de seus óculos. Passa a virar a sacola, naquele mesmo ritmo, mas agora para me salvar a alma. Ficamos assim, hipnotizados um pelo outro, por alguns três minutos.
     A porta se abre na Sé. Ele sai cantando lindamente. Agora consigo ver que suas roupas estão marcadas com as mesmas mensagens. Ele sobe as escadas rolantes para a Praça da Sé.
     Eu vou para o Brás...


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