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quinta-feira, janeiro 13

Condenados a ser livres!

"Não somos nem mecânicos, nem possessos; somos piores: livres." 
Assim J-P Sartre comenta a trama do livro 1919 (de John dos Passos). Nem somos autômatos cartesianos - artefatos criados à semelhança de relógios, fontes, moinhos e outras máquinas - cujas cabeças possuem uma glândula, um ponto de intersecção de muitos tubos que levam as forças controladoras dos seus movimentos, como uma mola que dá vida ao conjunto; produtos de uma indústria exata, cuja economia interior está desde sempre já dada. Tampouco somos possuídos por uma vontade, uma paixão (no máximo uma paixão inútil, como disse em outro momento), ou um conatus (como insistiu em O ser e o nada) - uma força-impulso metafísico disfarçado detrás de seus efeitos.
Somos livres, simplesmente: embora determinados historicamente, datados, enformados pela língua, efeitos ideológicos. Contudo, isso nada deve nos impedir de dizer: "eu". Sem sermos livres nada podemos responder frente a lei; o direito nada pode contra ou a favor de um sujeito que não é livre. Foi o caso do negro em tempos de escravidão - nada devia à lei ou à sociedade e à religião (do seu dono), porque escravo. Se o sujeito é determinado de ponta a ponta, a norma não se aplica, uma vez que ele está pronto e sua vida é perfeita, mecânica, automática, não exigindo nenhuma norma para suas condutas; estas são conhecidas e irretorquíveis; nem há um sujeito que reclame a diversidade, o singular - ou resista a empastelação ideológica.
Mas não é o caso. A lei, as regras, os regimentos devem dar conta de um sujeito que não é máquina ou possuído; agente livre, perigosamente a deriva, só fazendo o que deve fazer sob coação - primeiramente da tradição e depois pela norma.
Sujeitos de direito, livres para fazer o que quisermos, por isso determinados pela norma e pelo político; condenados à liberdade, somos mais que um autômato ou pulsão, entretanto menos que o político. O que será que isso pode nos dizer? Vejamos isso noutro tempo...

sexta-feira, outubro 1

Eu sou meu próprio gosto!

     "Estou aqui, saboreio-me, sinto um gosto velho de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede." "[...] Tudo isto era tão natural, tão normal, tão monótono, bastava para encher uma vida, era a vida. O resto, as Espanhas, os castelos na areia, era... o quê? Uma pobre religiãozinha laica para uso próprio. [...] Um álibi?" "É assim que eles me veem: [aquele] que quer ser livre, como outros desejam uma coleção de selos. A liberdade é seu jardim secreto. Sua pequena conivência consigo mesmo. Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, razoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida, feita de inércia, e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas."  (Mathieu Delarue, personagem de A idade da razão - Sartre, 1945)
     Se existir é matar uma sede inexistente com sucos de gosto nauseante, é de se pensar que essa degustação de zinabre com hemoglobina, seja possível apenas a conta-gotas, homeopaticamente. Do contrário, engasgamos e regurgitamos. A vida monótona, natural, normal, como devem ser as vidas, são analgésicos feitos de horas, dias, acontecimentos sem relêvo: uma planície com raros promontórios, vales e montanhas. E quando acontece uma relevância é o drama ou a tragédia. Já com Roquentin (A náusea, 1939) personagem tomado pela viscosidade da vida e do mundo, que não chega a nenhum ápice, Sartre nos apresentava à nossa existência. Não aquela de um tobogã, mas aquela de uma viscosidade quase paralisante. A do tobogã é parente da tragédia, do mortal, do luto de lágrimas quentes. A viscosa é a da maioria que tem sorte ou azar de viver sem acidentes, sem trancos e barrancos. Da primeira todo mundo foge, da segunda é para aonde se vai quando da fuga.
     Delarue não nos poupa de sua semelhança conosco. Mesmo naqueles casos mais felizes, ou seja, naqueles em que o sujeito se livra de uma existência monótona, só o será se por meio de uma pobre liturgiazinha criada a partir de pedaços de vida. É laica, porque a tentativa de fazer uma vida com sede, acaba por desdizer a monotonia de uma vida religiosa; vida com gosto de boldo e carqueja para aliviar o estômago. Esse culto para consumo próprio, com o amargor no centro, no púlpito, evita a religião oficial com sua falta de sabor. Amargo é melhor que o insosso.
    Mas Delarue não nos dá chance para a auto-indulgência. Chama nossas vidas de "álibi", do latim, "em outro lugar". Estávamos em outro lugar enquanto a vida acontecia. A liberdade que exigimos, o habeas corpus que pedimos, na verdade é um álibi contra a acusação de que nos auto-impingimos uma condenação.  Que estamos noutro lugar; não naquele que dizemos estar. Ou que justificamos nossas vidas. Mas também pode querer dizer que nossas vidas são álibis contra aquilo do que estão nos acusando - de fazer uma vida que não nos pertence. 
    Mathieu Delarue é belo e denso; uma personagem profunda por encarnar o heterogêneo da existência - reflexões elevadas que encobrem uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia. Pungente personagem que habita os cômodos de nossa igrejinha privada chamada corpo, onde se dá o culto de nossa religiãozinha particular chamada vida.

sábado, setembro 4

Narrar é melhor que viver!

"Reconhecemos de imediato a triste abundância dessas vidas sem tragédia; são nossas essas mil aventuras esboçadas, perdidas, logo esquecidas, sempre recomeçadas, que deslizam sem deixar marcas, sem nunca comprometer, até o dia em que uma delas, igualzinha às outras, subitamente, como por descuido e à traição, enoja um homem para sempre, desmonta negligentemente um mecanismo" 
(Sartre, 1947, Situações 1 p. 37, falando do livro 1919 de John dos Passos).

Quando olhamos com uma lupa as vidas que desfilam defronte nossas faces, como elas nos parecem carecer desta raridade do teatro ou do cinema; o trágico é que o cinema, o romance, o teatro, e mesmo as novelas em sua longeva exposição ao nosso olhar, são olhares com lupas. Por quê não parecem com a vida real olhada pela lente de aproximação, se usam o mesmo truque de aumentar os detalhes para alcançar dramatização? Um resposta possível (e, é certo, não a única) é que se trata de uma narrativa. A vida tem a desvantagem de acontecer em primeira mão. De não ser um acontecimento contado, fabulado. 
      Foi Sartre, também, pela boca de um de seus personagens, a nos propor que narrar é melhor que viver. A narrativa daquilo que vivemos é certamente mais atraente que aqueles comezinhos instantes de existir, sem importância alguma, que fazem a maior parte do tecido da vida. Mas basta nos dispormos a contar o vivido e os fatos mais banais tomam cor, encorpam e brilham!
      Também não adianta muito usar uma lente panorâmica para ludibriar esse sentimento de  "deslizar sem deixar marcas". Uma vida inteira de ir e vir, do trabalho para casa, da casa para a desgastada praia de sábado e domingo, ou do feriadão, da casa para o trabalho, academia, cinema no sábado a tarde quando não é possível ir a praia etc., pode ser um frágil mecanismo a desmontar sem saber quando e nem por quê. O panorama de uma existência é salvo por uma biografia, uma nota numa revista, uma fotografia... uma narrativa.
      A abundância das existências não pode nada contra essa sensação de que só fazem sentido ao serem narradas em segunda mão. Daí, penso eu, depois de algumas análises de sujeitos apanhados pela drogadição, que o abuso do álcool, o uso de drogas químicas seja uma tentativa de narrar a vida sem vivê-la, o que, além de dramático, é trágico. São gritos de socorro contra a abundância de existência sem tônus.
      A psicanálise freudiana ou sartriana, embrea uma narrativa que acaba se tornando uma segunda vida, uma vida paralela, que acaba construindo uma biografia pela fala. Em muitos casos será a primeira vez que uma pessoa veio a ter uma vida para viver - aquela da narrativa psicanalítica. Um pouco de brilho narracional aos fatos de vida esboçados e ameaçados de desmilinguir talvez seja a melhor maneira de viver uma vida viva...
     Sartre propunha fazer da vida uma obra de arte. Será que podemos pensar em uma criativa narrativa de si mesmo como a arte de viver afastado desta tristeza que chamou atenção?

terça-feira, julho 20

Os caminhos da liberdade!

     "Espantar as palavras, eram um pulular de pequenos sursis, cada qual lhe marcando o encontro ao fim de si mesmo..." (Jean Paul Sartre - 1945, segundo volume do romance "Os Caminhos da Liberdade" - tradução de Sérgio Milliet, 4ª edição - Ed. Nova Fronteira).

       Os filósofos falam na terceira pessoa (ele) ou na primeira pessoa do plural (nós). Eventualmente dizem "o homem", "o vivente", "o ser", "o ente". Sartre, nos momentos cruciais da demonstração de seu pensamento existencial, preferiu, ou foi obrigado pela força do pensamento que o ultrapassava, dizer "eu". Não que não se utilizasse dos outros expedientes de localização do ponto de vista. Mas, exagerava, talvez conscienciosamente, no uso da primeira pessoa. Foi um homem que se colocou sem medo de contradizer-se, pois como ele mesmo se define em uma entrevista para uma televisão, era "um qualquer". Tratava, na entrevista, da ousada criação do Tribunal Russel, quando lhe perguntaram algo que sugeria que ele deveria ter certas qualidades para subscrever tal tribunal - feito para julgar crimes de guerra.
       Original, ousado, pensador brilhante, pessoa enredada no político, para o bem e para o mal, não fugiu da responsabilidade de posicionar-se e ter que responder pelos maus efeitos de sua escolha. Por outro lado mal se referia aos bons efeitos - eles simplesmente não lhe interessavam tão logo provocados. Condenado a ser livre, no seu próprio dizer, escolheu-se na suas escolhas e pagou todas as faturas de suas opiniões. Liberdade foi seu tema mais pungente.
       Um paradoxo daqueles que sempre gostou de nos colocar, vemos surgir a liberdade como uma pena a que fomos condenados sem julgamento formal. E as palavras seriam um livramento condicional desta pena - um sursis. Livramento da liberdade, da escolha, do fazer sentido. Um livramento que inexoravelmente, entre uma palavra e outra, é contrariado e nos faz tornar à mesma pena; só para fazer tudo de novo. Quando já estamos com nosso alvará de soltura, tropeçamos em outra palavra e lá vamos nós, de novo, à prisão de ser livre.
          Sursis, que naquela frase cifrada, um verdadeiro código escondendo talvez um pensamento mais complexo do que pode nos informar, aparece como o livramento condicional que cada palavra nos impõe, mais do que nos premia. Se, conforme nos diz, ou penso entender, em outros momentos de sua extensa obra, estamos condenados à liberdade, cada palavra nos livra dessa condenação, dessa pena existencial, que jamais pode ser plena, e por isso, palavra puxa palavra, nos deixando com a sensação de que uma vez privados de liberdade agora somos, paradoxalmente, livres. Cada palavra nos livra, mesmo que condicionalmente, da liberdade, pena perpétua e mortal.
       Cada palavra, funcionaria como uma suspensão condicional da liberdade. Nas palavras vê uma cadeia infinita de suspensões da pena de liberdade, tornando-nos presas da linguagem, ou ainda mais complexo, segundo Pêcheux, efeitos de linguagem. Condenados à liberdade, como Sartre nos diz, ou a significar como Orlandi nos lembra; presos às palavras, vamos suspendendo condicionalmente a execução da pena privativa de liberdade - o sursis.  
         Se o sujeito é constituído por linguagem, se seu osso é feito de linguagem, tornando-o, pelo uso das palavras, livre da liberdade, ainda que condicional e provisoriamente, então o sujeito é uma cadeia de sursis. Se cada palavra é uma suspensão condicional da pena de significar, significa que nossas vidas são feitas de uma infindável corrente de pequenas suspensões condicionais da condenação pela liberdade. Fico curioso com o que se dá, ou o que fazemos nestes períodos de liberação da liberdade. Mas talvez existam apenas como um "experimento da língua", como nos propõe Giorgio Agamben, outro filósofo.



         Pois cada palavra é um átimo de sursis; e porque pululam mal se nos deixam experimenta-las e lá vem novo sursis. Trazidos à vida pelas palavras, pela linguagem, pela língua, pela ideologia (nos moldes da Análise de Discurso) vamos sobrevivendo aos ataques das escolhas, da liberdade, por conseguinte. O que se dá entre uma palavra e outra? Entre dois sursis...? A saída do personagem era tentar espantar as palavras; seria abandonar-se, irrevogavelmente, à liberdade? Será que colocar as palavras acompanhadas da terceira pessoa pode ajudar nessa missão quixotesca? Perguntas! Perguntas!!    

sábado, maio 29

Sursis II - frases que apontam o gênio de Sartre!

Digam o que disserem, a pobreza deixa as pessoas vulgares. [...] sobretudo não me olhar mais; se me olho sou dois. [...] Entretanto, há um centro. Um centro: eu. Eu - e o horror está no centro. [...] Ser de pedra, imóvel, insensível, sem um gesto, sem um ruído, cego e surdo, as moscas, os insetos passando sobre meu corpo, uma estátua severa de olhos vazios sem um projeto, sem uma preocupação; talvez conseguisse coincidir comigo mesmo. [...] Espantar as palavras, eram um pulular de pequenos sursis, cada qual lhe marcando o encontro ao fim de si mesmo... [...] Se eu fechasse os olhos: os olhos conduzem longe demais, para fora do instante, para fora de mim, para lá longe, nas folhas, nessas costas; o olhar acuado, furtivo, fugindo, sempre no extremo de si mesmo, apalpa a distância. [...] Onde está ela? Por toda parte: nasce de todos os lados, o trem corre dentro da guerra. Gomez aterrissa na guerra, esses turistas de branco passeiam na guerra, não há um batimento de coração que não a alimenta, nem consciência que não seja tomada por ela. [...] A guerra pega tudo, junta tudo, não deixa que se perca nada, nem um pensamento, nem um gesto, e ninguém a pode ver, nem mesmo Hitler. [...] Um corpo enorme, um planeta, em um espaço de cem milhões de dimensões; os seres não podiam sequer imaginá-lo. E no entanto cada dimensão era uma consciência autônoma. Se tentasse olhar de frente esse planeta, ele se desintegraria e sobrariam somente consciências. Cem milhões de consciências livres, cada uma delas vendo paredes, tocos de charutos, rostos familiares, e construindo seu destino por conta da própria responsabilidade. Entretanto, se a gente fosse uma dessas consciências, perceberia, através de imperceptíveis toques, de insensíveis mudanças, que estava preso a um gigantesco e invisível polipeiro. A guerra: todos são livres e no entanto a sorte está lançada. Ela está aqui, está por toda parte, é a totalidade de todos os meus pensamentos, de todas as palavras de Hitler, de todos os atos de Gomez: mas não há ninguém para estabelecer o total. Só existe para Deus. Mas Deus não existe. Contudo a guerra existe. [...] Pensou em sua vida e não a achou mais demasiado curta: as vidas não são nem curta nem longas. Era uma vida, apenas. [...] Mas não se escolhe a vocação: acerta-se ou malogra-se, eis tudo. E o pior, na sua, era que não podia voltar atrás. Havia existências que se assemelhavam aos exames finais: submetiam-nas a várias provas e, se fracassavam em física, podiam alcançar média com as ciências naturais ou filosofia. A dele sugeria antes um certificado de filosofia geral, no qual se é julgado por uma única prova; era terrivelmente intimidante. [...] Era preciso dizer a si mesmo que de certo ponto de vista, tudo se equivale: um ataque em Argonne vale um passeio de gôndola... [...] Entretanto, até aquele momento ainda restava alguma coisa a que se poderia chamar Mathieu, alguma coisa a que se agarrava com todas as suas forças. Não saberia defini-la. Talvez um hábito muito antigo, talvez certa maneira de escolher seus pensamentos à sua imagem, de se escolher a si mesmo ao acaso dos dias, à imagem de seus pensamentos, de escolher seus alimentos, seus hábitos, as árvores e as casas que via. Nada: haveria para sempre, este relâmpago seco inflamando pedras sob o céu escuro; o absoluto, para sempre; o absoluto, sem causa, sem razão sem objetivo, sem outro passado, sem outro futuro senão a permanência, gratuito, fortuito, magnífico. "Sou livre", pensou subitamente. E sua alegria transformou-se de imediato em esmagadora angústia. [...] Houve um silêncio. Somos animais, fazemos frases em torno de um instinto. [...] Fora do mundo, fora do passado, fora de mim mesmo: a liberdade é o exílio e estou condenado a ser livre. [...] Bocejavam, dormiam, jogavam cartas, mas tinham um destino, como os reis, como os mortos. Um destino esmagador, que se confundia com o calor, a fadiga, o zumbido das moscas [...] Um jovem é como viajantes que entram à noite num compartimento quase cheio: as pessoas os detestam e preferem fazê-los acreditar que não há mais lugar. [...] As ruas, as casas, os vagões, a delegacia: um mundo cheio até a borda, o mundo dos homens.

(Sursis - J-P Sartre - 1945 segundo volume do romance "Os Caminhos da Liberdade" - tradução de Sérgio Milliet, 4ª edição - Ed. Nova Fronteira)

domingo, abril 4

Um erro original vale muito mais do que uma verdade banal!

"Não, mas o que é que estão pensando disso - gritou [Razumíkhin], elevando a voz mais ainda. - Pensam que tenho raiva deles [seus amigos] porque dizem absurdos? Estão enganadas. Gosto disso! que se enganem. É a única superioridade dos homens sobre os outros seres. É assim que se chega à verdade. Sou homem, e me engano porque sou homem. Não se chega a nenhuma verdade sem nos enganarmos pelo menos quatorze vezes, talvez cento e quatorze, e isso é até uma honra. Mas nunca nos enganamos de modo geral. Um erro original vale muito mais do que uma verdade banal. [...] Todos, todos sem exceção, é o que lhes digo, nos achamos, no que se refere à ciência, à cultura, ao pensamento, às invenções, ao ideal, ao desejo, ao liberalismo, à razão, à experiência e ao resto, numa classe preparatória de liceu e contentamo-nos em viver com o espírito dos outros (Crime e Castigo - grifo meu).
       Lacan nos indica que o eu é um outro. Talvez se possa dizer que nosso viver é, além desse eterno vestibular para uma faculdade da vida, uma vivência fadada a repetir o que o espírito de outro projeta.  Cruzamento perverso de vontade alheia com o sentimento de ficar enviscado no vestíbulo da existência; da busca da verdade com o sentimento de que o erro é que impera; a existência de cada um se dá nessa relação e não fora dela. Haverá uma saída para entrar na vida autêntica; melhor dizendo, haveria uma vida autêntica, ou esse é mais um termo do idealismo filosófico que grassou pelo pensar humano e o afastou da vida experimental - uma vida que é experiência de viver - sem tino?
      Sartre quis dizer que sim, que uma vida pode ser ou não ser autêntica, mas para defender seu ponto fez uma série gigantesca de obras, que foi do filosófico à literatura, da crítica literária ao teatro. Que eu saiba não conseguiu satisfazer-se com suas respostas; mas bem pode ser porque ele, mais que muitos de nós, soube que somos o que ele grafou, incansavelmente, "liberdade". Liberdade esta que talvez seja nossa condenação a tentarmos nos aprisionar no desejo do outro, para não sentirmos a extensão enlouquecedora de ser livre. Não sei se Sartre, Lacan ou Dostoiévski concordariam com isso; sequer se poderiam dialogar a respeito. Mas sei que, de um modo ou de outro nosso descontentamento em viver o espírito do outro não chega a nos demover no sentido de criar um espírito próprio. E até devemos nos perguntar: "Viver do próprio espírito não seria temerário, uma vez que os limites explodiriam e nada nos serviria de pele continente, e ficaríamos a mercê do desterro ou mesmo do exílio?" 
      Fiódor Dostoiévski sofreu do desterro e exílio; lutou com todas as forças para fazer diferente. Mas, foi porque viveu como "um qualquer", como diria Sartre, é que pode criar um monumento como Os irmãos Karamázov. Depois desta barafunda de ditos, só dizendo algo parecido com: só erram os que tentam acertar. Só acertam os que arriscam fazer. Ou algo do gênero, se me perdoam a bagunça!
     Razumíkhin, talvez tivesse tido, no romance, o status de alterego de Dostoiévski. Quando o personagem diz a frase acima está bêbado, andrajoso, aloucado pelos lindos olhos de Dúnia, irmã de seu amigo Raskólnikov, dividido pelo amor aos amigos que só falam asneiras, pobre ao ponto de parar os estudos... linda frase de um qualquer!

segunda-feira, março 22

Sursis - frases que apontam o gênio de Sartre!

E tudo se pusera a cair, vira as casas como eram de verdade: quedas sustadas. //A morte está inscrita nos homens, a ruína está inscrita nas coisas [...]//Cada coisa do mundo tem seu odor, sua sombra crepuscular, pálida e comprida, seu futuro particular. E a soma de todos esses futuros é a paz: podemos tocá-la na madeira carcomida dessa porteira, na nuca fresca do menino, podemos lê-la nos seus olhos ávidos, ela sobe das urtigas aquecidas pela luz do dia, ouvimo-la no tocar dos sinos.//Morto. E sua vida ali estava, em tudo, impalpável, terminada, dura e inteiriça como um ovo, tão cheia que todas as forças do mundo não poderiam fazer-lhe entrar um átomo, e tão porosa que Paris e o universo passavam através dela, dispersa pelos quatro cantos da França e condensada por inteiro em cada ponto do espaço, uma grande feira imóvel e ruidosa [...]//

domingo, janeiro 10

Graças a Deus! ... e ao Diabo!

Liane Alves da Revista Vida Simples me fez algumas perguntas:


Qual a diferença de ser bom e ser bobo? Ou toda bondade se reveste de um pouco de ingenuidade, de pureza? E o que é maldade? Existe gente que sente prazer em prejudicar? Ou é questão de sobrevivência? Existe um mal que possa ser justificado? Por que o mal parece mais forte e presente do que o bem?O que é ser bom? Existe alguém totalmente bom? Ou a gente é bom eventualmente? Se é eventualmente, existe gente com maior capacidade de ser boa do que outras? O que capacita o ser humano a exercitar a bondade? É coisa de nascença? De criação? O pessoal do campo é mais generoso do que o da cidade? Por quê?O que é ser bom? Existe alguém totalmente bom? Ou a gente é bom eventualmente? Se é eventualmente, existe gente com maior capacidade de ser boa do que outras? O que capacita o ser humano a exercitar a bondade? É coisa de nascença? De criação? O pessoal do campo é mais generoso do que o da cidade? Por quê?
Por mais que tenha me esforçado bem sei que o tempo disponível - pouco mais que uma manhã entre análises de alguns pacientes - e meus limites intelectuais, não me permitiram ir além do que transcrevo abaixo. Espero que tenha ajudado a pensar um rumo para novas questões. Quero voltar ao tema no futuro...
Existem pessoas mais, digamos, predispostas a amar. Trata-se, segundo entendo, de umas pessoas que se desenvolveram de criança em adulto, em um meio onde houve uma fusão inicial suficientemente boa entre o corpo do bebê e o corpo da mãe (ou de alguém que fez a maternagem); onde essa mãe, sem ser intrusiva – impondo o que se deve ou não se deve sentir, sem ser evasiva – deixando tudo por conta do bebê pensar, sem ser violadora – vendo tudo, adivinhando tudo, respondendo tudo, consegue estar com seu bebê numa forma de um corpo para dois, uma alma para dois, uma mente para dois, até que a criança possa criar um mundo para habitar. É muito importante que a criança possa criar a realidade e não deparar-se com algo pronto que se lhe enfiem goela abaixo. Se não for assim como poderia amar o outro ou o mundo? Se não foi criação própria, de um eu crível, amável? Como poder amar algo radicalmente diferente de si se não for por meio desta criação inicial, que dá a sensação de que aquilo que se ama é parecido consigo próprio por que foi criado por nós? O que digo aqui é inspirado nas teorias de Winnicott, psicanalista inglês, que pensou um estado inicial do bebê – estágio do concernimento – onde o bebê inicial começa a dar sinais de que sente no lugar da mãe – a dor no seio, o cansaço etc.
O bebê nascente é assolado pela crueldade, sem concernimento; não tem consideração pela mãe e sua carne exige a nutrição e tão somente. Ao chegar no concernimento o bebê já pode fazer um gesto reparador; isso significa que já pode se colocar no lugar do outro e tentar reparar os males que lhe causou. Essa é, em resumo, a base para se dizer que nascemos cruéis, mas não maus – o que não nos impede de agir brutalmente quando isso é exigido de nós. Alguém que é bom, ou que ama, é aquele que pode, com um trabalho contra a crueza, colocar-se no lugar do outro ou olhar pelo viés do outro; não por que tenha transformado o mal em bem, mas porque desde sempre criou o mundo em que vive. Isso requer dizer que ninguém muda seu olhar pela mágica – ou se está pronto para isso, desde o bebê inicial, segundo o que trouxe acima, ou não se está.
Excetuemos o caso dos psicopatas que não orbitam neste mesmo mundo, podendo dizer com calor, sentimentos pelos quais não são possuídos (não possuímos sentimentos, como os psicopatas; somos possuídos por eles). Eles, os psicopatas não são possuídos por qualquer coisa que seja.
Em geral lidamos há muito tempo com o ódio – da mãe pelo bebê, do bebê pela mãe, do pai pelos dois etc. – e só por isso podemos alcançar a dimensão do amor, que não é falta do ódio (do mal), mas uma relação de compreensão de sua presença. Afinal o eu foi erigido segundo interdições cotidianas odientas e permissões menos cotidianamente gozosas. Entre um caso e outro, nesse sentido, podemos dizer que somos bons e maus; ambíguos no próprio eixo onde giramos. Assim, não há alguém totalmente bom, e nem sempre somos só bons ou maus. Uma vez vi a foto de um grande matador, morto a tiros dentro de um carro, que usara o próprio corpo para salvar a vida de seu bebê de colo. Mas não vestimos peles de cordeiro escondendo um predador; somos tanto um quanto outro. Em geral deixamos, ou somos estimulados a viver segundo bons termos. Muito raramente escapa-se-nos o lado brutal.
Felizmente convive ao lado do sentimento de que a bondade é ingenuidade ou bobeira, o sentimento de que ser bom é ser heróico; isso harmoniza o prumo das nossas relações sociais, pacifica nossas distâncias.
Às vezes causar dor é uma questão de sobrevivência. É por aí que justificamos as guerras, um mal necessário. Mas, no âmbito cotidiano, mais trivial, podemos lutar por uma vaga de emprego, contra um outro que é mais necessitado que nós. Justificamos isso dizendo que as “armas” são as mesmas, que foi um “combate” justo, que o resultado é “isento”. Isso nos alivia a consciência. Mas, para citar só dois exemplos de fracasso dessa justificativa, temos os casos de psicanálise onde uma pessoa fracassa quando faz sucesso, por ter um sentimento difuso e profundo de não merecer o que possui por ter causado dor para chegar aonde chegou. Também é caso daqueles que “fracassam” quando começam a entrever um mecanismo social bem tramado onde muitos dos que vencem usam cartas marcadas (indicações, parentescos, fisiologismo – todos elementos do exercício do poder). Isso sem dizer que as armas não são as mesmas, o combate foi tendencioso e o resultado não isento, porque a sociedade não é justa, igualitária ou isenta. Nesse caso se sentem não merecedores por razões concretas, mas tão difusas e profundas quanto as primeiras,
Uma saída para o dilema será dizer: Graças a Deus eu estava no lugar certo, na hora certa... com as
pessoas certas! E seguir a vida como se houvesse igualdade entre os homens, equanimidade de usufruto de fortuna civil e justeza na distribuição dos resultados do trabalho. Ao crer nisso, justifica-se o absurdo da naturalização do bem e do mal...

domingo, dezembro 27

A beleza é uma contradição velada! (Sartre)

Beauté terá sido a palavra francesa que Sartre usou para compor esta frase? Não tenho o original em francês do seu Situations I, onde escreveu a bela frase, que em meu francês claudicante (lembrar que além de nascido francês Sartre escreveu como poucos - prosa, crítica literária, filosofia, peças teatrais etc, em sua língua) vou pensando em palavras como: contradiction e veillée. Bem, vejamos em português, que domino um pouco melhor.
Beauté [pronuncia-se botê] pode significar formosura, lindeza etc; contradiction é fácil - algo como oposição entre dois termos em uma mesma frase. Também dizemos espírito de contradição; ou aquilo que provoca contestação, é contestável, ou seja, o que possui contradição não é incontestável. Velada pode significar coberta, vigiada, véspera, serão, passar sem dormir, guarda; tem a ver com véu, também. Além de outras acepções que depois trarei para o diálogo. De qualquer modo podemos dizer a frase de Sartre - pelo menos a traduzida no Situações I - editada no Brasil, nos seguintes modos:
"A beleza é uma oposição vigiada"; "A beleza é um algo contestável vigiado"; "A beleza, por ser contestável precisa de vigília"; "A beleza só existe sob guarda, vigilância". Mas, afinal, onde isso poderá nos levar?
Sartre, ao que me consta, escreveu consequentemente, ou seja, nada de frases de efeitos só pelo espetáculo gramatical, sintático ou fraseológico. O que não nos exime do sentimento de que, em certas frases, estamos diante de um enigma. Mas podemos começar por aproximar seu dito de outro dito já popular: "A beleza se encontra nos olhos de quem a vê", ou seja, contestável, e por isso, exigindo eterna confirmação de que possui de fato a formosura que lhe imputamos.
A beleza, no dizer de Sartre, bem poderia ser uma realidade que não possui real, ou seja, que não tem certidão, constituindo-se em uma realidade a ser confirmada, guardada dos ataques dos olhares dos outros - guardada até mesmo de si próprio, tornando-se uma realidade de fé. Pois que não é verdade que as vezes nos damos conta de que estamos perguntando se o que vemos como belo de fato o é? Acontece nas melhores mentes, nas mais sinceras relações...
No dia 23 de novembro passado postei "Não te aflijas! O amor é mero acaso!", a propósito desta estranheza de amar-se o feio, transfigurando-o em bonito. Acho que Roxane, para ver Cyrano bonito deverá abstrair, de saída, seu grande nariz que enfeia irreversivelmente, suas faces, sua cabeça inteira. Isso não será problema se a beleza de Cyrano for constantemente velada... em todos os sentidos acima...
(o desenho se refere ao Cyrano histórico; nada a ver com o ficcional, criado por Edmond Rostand)  

quarta-feira, novembro 11

"O rei reina, mas não governa"! E o Lula?

Foucault, no Segurança, território, população, cita L.-A.Thiers (em artigo escrito em 1830), na aula de 23 de fevereiro de 1978, para lembrar que em certo momento da história a soberania sobre o território passa a ser o governo de populações. Diz ele: "Poderíamos  acrescentar ainda o seguinte: quando falei da população, havia uma palavra que voltava sem cessar - vocês vão dizer que fiz de propósito, mas não totalmente talvez -, é a palavra 'governo'. Quanto mais eu falava de população, mais eu parava de dizer 'soberano'. Fui levado a designar ou a visar algo que, aqui também, creio eu, é relativamente novo, não na palavra, não num certo nível de realidade, mas como técnica nova. Ou antes, o privilégio que o governo começa a exercer em relação às regras, a tal ponto que um dia será [foi] possível dizer, para limitar o poder do rei, que 'o rei reina, mas não governa', essa inversão do governo em relação ao reino e ao fato de o governo ser no fundo muito mais que a soberania, muito mais que o reino, muito mais que o imperium, o problema do político moderno creio que está absolutamente ligado à população" (p99).
Me pergunto, e não sei responder (mas não custa perguntar, já que, como dizem os mineiros, perguntar não ofende) se no caso do Lula, não temos uma certa inversão da proposta foucaultiana: "Lula não governa, mas reina". Às vezes pela bufonaria, como quando responde a FHC, que questiona seu governo, com ataques hilários, dizendo que FHC estava despeitado por Lula não ter se dado mal na governança. Só mesmo, ao meu ver, um governo que se toma por um rei poderia dar-se ao luxo de não responder a um questionamento de suas práticas de governo - e fazer argumentação de cozinha ou de sala de estar em dia de jogo de buraco, na casa do amigo do primário. Como poderia um presidente responder como se fosse uma briga de comadres pelo melhor bolo de fubá, ou descer o nível da conversa ao fundo do inobservável, se não se sentisse inatacável como um rei, imperador, soberano. Lula deve ter realmente esse poder que o exime de uma discussão responsável, afinal, esperto como é, não se exporia a essa tagarelice surda. O povo o colocou no poder e ele sabe muito as técnicas de dirigir populações, conhece como ninguém os meandros da economia do poder e de como se manter nele e, finalmente, se diverte com seu reinado, já que governar, não estou certo de que o faça. Enfim, a população o colocou lá para que a governe, mas o que melhor ele sabe fazer é gozar da soberania. Que Foucault me perdoe a exorbitância a partir de seu texto!

terça-feira, agosto 11

A divina comédia – canto I: “Surgiu depois uma loba muito mirrada e ameaçadora; ela guardava as ambições sórdidas que levavam muitos homens à miséria. Dominado pelo medo que seu terrível aspecto me infundia, acreditei que não seria capaz de chegar ao alto da colina... e nisso assemelhei-me ao homem que, visando em tudo apenas lucro, explode em pranto se perde em vez de ganhar.”
Sem tardar, ainda no início do Canto I, Dante já nos anuncia seu empreendimento: listar os grandes e pequenos pecados que movem a humanidade, e descrever, minuciosamente, os castigos que cada um merece pela perfídia cometida. Resolveu começar já localizando aquele tipo de gente “que sente mais fome, depois que come”, completamente abatidos pelo desejo “do ouro e do poder”. São feras que fazem gelar o sangue até de Virgílio, e jamais saciam o apetite. “Com muito seres semelhantes ela [a loba insaciável] se acumplicia, e assim continuará fazendo até que a enfrente o galgo que haverá de lhe dar morte medonha”.
Isso me lembra os especuladores da bolsa, os atravessadores, alguns senadores e uma legião de exploradores do erário. São as lobas dantescas, mirradas e ameaçantes, sangrando sem dó, concupiscentemente, sem um pingo de vergonha, a seiva monetária da nação.
Pena que Dante Alighieri tenha usado uma loba para representar tais energúmenos; creio que não haja outro ser vivo que possa representar a sede de ouro e ostentação de uns certos homens... deixemos a loba para, no máximo, representar aquela que alimentou os fundadores de Roma, cidade que, me parece, Dante não conheceu, vivendo em Florença, depois exilado em lugares e com gente que de certo modo reencarnou por aqui...

segunda-feira, agosto 3

"O homem não coincide consigo mesmo" - II

Continuo com a frase de Dostoiévski. Não a do título da postagem de 10 de julho, mas uma outra em que ele disse algo assim: se Deus não existe tudo é ou será permitido. Antes, porém, quero voltar à frase “O homem não coincide consigo mesmo”. Em Sartre o homem é aquilo que não é e não é aquilo que é; ou a consciência é consciência de, impondo que ser consciente é ser consciência de algo, de situação, de tempo, de desejo – mas, principalmente consciência do outro e não de si mesmo. O sujeito é consciência de tempo, e por causa disso, está sempre noutro tempo que não é aquele que diz estar – se diz do futuro, está no passado; se fala do passado está no futuro; se quer viver o presente condena-se a viver atrasado em relação a si mesmo; se tenta atualizar-se frente a si mesmo atrasa-se no ato mesmo da atualização. Mas que se diga: consciência de tempo não como uma essência hominal olhando para o tempo; e sim um sujeito cuja subjetividade é constituída pelo tempo, nem antes nem depois; um sujeito em que o tempo é essencial, sem ser sua essência, pois o homem não possui essência ou substância, e é isso que faz com que crie um sujeito com o qual não coincide. No limite, cria um deus, com o qual jamais coincidirá, para que se cumpra o sentimento obscuro de não poder dizer o que de fato é.
Aqui retorno sobre ser permitido tudo ao homem que não acredita em um deus. Nada mais falso; isso é criação das ideologias religiosas, que precisam da submissão do religioso para manutenção de seu poder econômico e político. Se um homem não acredita em um deus pode livremente destinar suas forças econômico-políticas para o... político! Não terá mais que fazer sucesso para as massas, ou uma ideologia do fetichismo de mercadoria. Além disso, poderá construir uma vida ética, onde suas forças pessoais são todas dirigidas ao cooperativismo, comunitarismo, associativismo, que são as bases para uma desobediência civil ao deus-mercado – deus que é a forma material do deus das religiões mono e politeístas. A pergunta que se faz é se com esses dois argumentos iniciais – de uma série de outros – se o homem sem deus não seria uma evolução para um homem verdadeiramente politico, cidadão, ético, desprendido do capital, naquilo que o capital o empobrece – numa certa tradição de seres políticos que são representados, coincidentemente, pelos personagens ateus da história. Sartre encabeça esta lista, a meu ver. E isso não o tornou alguém a quem foi permitido tudo, por não acreditar em um deus. Também devo lembrar que algumas sociedades produziram movimentos históricos onde não há deus, o budismo por exemplo, e nem por isso não deixaram de produzir altos extratos morais. Por um lado, Sartre, se preocupou em escrever sobre moral como responsabilidade, cuja morte interrompeu o projeto; e os budistas com sua não-violência inspiram muitos grandes nomes na busca por um mundo melhor que este que o religiosismo monoteísta (principalmente) nos legou. Não sou budista, mas creio que eles representam bem a vida ética que se pode produzir por meio da desistência de fé em deuses.

quarta-feira, julho 22

Bíos e Zoé!

"Os gregos não possuíam um termo único para exprimir o que nós queremos dizer com a palavra vida. Serviam-se de dois termos, semântica e morfologicamente distintos, ainda que reportáveis a um étimo comum: zoé, que exprimia o simples fato de viver comum a todos os seres vivos (animais, homens ou deuses) e bíos, que indicava a forma ou maneira de viver própria de um indivíduo ou de um grupo. Quando Platão, no Filebo, menciona três gêneros de vida e Aristóteles, na Ethica nicomachea, distingue a vida contemplativa do filósofo (bíos theoreticós) da vida de prazer (bíos apolausticós) e da vida política (bíos politicós), eles jamais poderiam ter empregado o termo zoé (que, significativamente, em grego carece de plural) pelo simples fato de que para ambos não estava em questão de modo algum a simples vida natural, mas uma vida qualificada, um modo particular de vida" (Agamben, O poder soberano e a vida nua - I,2007).

De fato, ainda usamos o singular para significar "a vida" em termos de energia vital, se quisermos ser o mais rigoroso possível ao separar a vida estética, o discurso, a vida como laço social, daquilo que comumente dizemos por tempo de vida; mas também usamos vida, no singular, para representar toda a saga de um pessoa pelo mundo ou mesmo suas vivências mais íntimas etc. Podemos dizer que vida neste sentido é a biografia, a cultura ou a coleção de desejos de um indivíduo em particular. Mais a frente, Agamben tenta nos informar que contemporaneamente, a vida enquanto fisiologia é que está cada vez mais em questão e não as biografias... De que trata esse "retorno" à pele? Parece que cada vez mais nos importa o "renew" de certa marca de cosmético, em detrimento dos platonismos: consciência, responsabilidade, prazer estético, contemplação, vida política, profundidade da alma... Talvez já não nos curvemos - para o bem e para mal - à ditadura platônica do conhecimento acima de tudo. O que será que isso pode nos informar e aonde nos levará? Espero (como se fosse um platônico, o que não sou) que isso nos leve a um materialismo sartriano. Depois tentarei me explicar.

sexta-feira, julho 10

O homem não coincide consigo mesmo!

“O homem não coincide consigo mesmo” (Dostoiévski), citado em Situações I, de Sartre, na introdução de Bento Prado Jr. (Sartre e o destino histórico do ensaio). Concordo, em princípio, mas não tenho certeza de que na mesma perspectiva de Dostoiévski. Esse “si mesmo” que nos traz vem de um homem que disse que se Deus não existe, tudo é possível, no sentido que aí então se instala o sem sentido, a anomia, o caos – portanto, um homem profundamente cristão e teísta (veja a definição de teísta aqui mesmo em postagem anterior). Me parece a própria condição humana, a de não coincidir consigo mesmo; mas deixe-me precisar: o sujeito não coincide consigo mesmo por que não há um si mesmo substancial, empírico, epistêmico para que ele seja o mesmo, um em-si, quero dizer que o homem olha para si e não vê a si mesmo, por que não é uma coisa. Esse si mesmo é um efeito ideológico (nos termos de Althusser, Pêcheux, Orlandi), um construto histórico, uma ilusão referencial. Um teísta deve acreditar que o homem é uma substância, e que se não coincide consigo mesmo é por causa dessas trágicas experiências que advém do livre arbítrio insuflado no homem por Deus. Mas, pelo menos em tese - se tudo correr bem - se acreditar em Deus acontecerá de lhe ser revelado Deus – coincidindo consigo mesmo! Bem sei que essa é uma heresia! A revelação cristã não faz coincidir o cristão com Deus, mas o que levanto aqui é que se houver uma coincidência de substâncias é por que então a criatura coincide com o criador. Enfim, há muitas críticas ao que argumento aqui. A mais elegante de todas é de que sou espinosista... É chique, e educado, mas não chega perto do que estou tentando dizer... O sujeito de que falo é efeito da história, contudo é um efeito de profundidade, onde até sua certeza de que é um si mesmo é produto do frigir das forças ideológicas.
Se o homem não coincide consigo mesmo, isso não se dá por um dificuldade especial para que entre em contato com sua verdadeira essência; mas sim por que não há uma verdadeira essência a ser atingida. O que não quer dizer que o homem não possa se sentir verdadeiro, intenso, consistente (mesmo sem substância), o que merece outras linhas...

segunda-feira, junho 8

O discurso encarnado: ou a passagem da carne ao corpo-discurso


G. Agamben em seu Estado de Exceção (2004, Boi Tempo, p. 132,133): “Se é verdade que a articulação entre vida e direito, anomia e nomos produzida pelo estado de exceção é eficaz, mas fictícia, não se pode, porém, extrair disso a consequência de que, além ou aquém dos dispositivos jurídicos, se abra em algum lugar um acesso imediato àquilo de que representam a fratura e, ao mesmo tempo, a impossível recomposição. Não existem, primeiro, a vida como dado biológico natural e a anomia como estado de natureza e, depois, sua implicação no direito por meio do estado de exceção. Ao contrário, a própria possibilidade de distinguir entre vida e direito, anomia e nomos coincide com sua articulação na máquina biopolítica. A vida pura e simples é um produto da máquina e não algo que preexiste a ela, assim como o direito não tem nenhum fundamento na natureza ou no espírito divino”. Em certos momentos de minha dissertação (O discurso encarnado: ou a passagem da carne ao corpo-discurso) pensei, pelo menos teoricamente, em fazer uma espécie de caminho que iria da “vida pura e simples” (biológico, anomia), a carne, no meu dizer; a um corpo que seria apenas discurso. Pelo simples fato de eu colocar o termo “passagem”, por mais que tenha tentado desmontar esse princípio vital que passa a ser um corpo que é discurso, acabou por implicar um antes e um depois. Com o correr do trabalho me dei conta de que tudo ao meu alcance, fora feito, com o fim de evitar esses dois tempos do corpo. A tática foi admiti-los separados pra depois desconstruir essa temporalidade, mas o resultado demonstrou não ser o suficiente. O problema é o mesmo apresentado por Agamben – ele se preocupando com “vida e direito” e eu com a carne e o corpo. No doutorado pretendo dar seguimento as essas considerações e reconsiderações...

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